domingo, 18 de março de 2012

XVII - Relato de parto: Carol Mendes

Se você conhece o Aralume, "pai" desse blog, certamente conhece a Carol e a Clara. E é com muita alegria e emoção que O Filho do Aralume recebe seu primeiro relato de parto, esse parto tão especial, dessas mulheres tão especiais. Ontem a Clara completou 1 ano e 9 meses e foi bem às vésperas dessa data que o relato saiu... como diz a autora, "fiquei quase dois anos parindo".

Ao ler esse relato, ficou muito claro pra mim que a tal "dor do parto", que causa tanto medo em tantas mulheres, é muito mais profunda e forte do que aquela das contrações... e pra essa não há anestesia que dê jeito. Mas, por outro lado, quem tem força e coragem de encará-la tem nas mãos uma ferramenta poderosíssima de cura, transformação e evolução.

Nessa temática tenho três desejos para todas as futuras mães:
1. Que tenham a lucidez de entender que possuem essa ferramenta preciosa e rara (quantas vezes você acha que vai parir na vida?!);
2. Que tenham força e coragem para mergulhar fundo em suas dores e medos;
3. Que tenham amparo para subir à superfície e ver sua imagem refletida no espelho das águas profundas da transformação.


Confissão de um parto,
relato de parto,
ou o dia em que eu entendi meu parto

O parto da minha filha foi a experiência mais transformadora da minha vida. Eu penso em tudo o que vivi e agradeço por esse momento todos os dias, mas ainda havia algo em mim que precisava ser esclarecido.

Minha filha, Clara, nasceu há um ano e nove meses e durante todo esse tempo fiz mentalmente inúmeros relatos do meu parto. No entanto, havia algo que me impedia de escrever, algo que eu não entendia e que portanto, não poderia ser contado. Só agora esse relato pode acontecer.

Clara nasceu em casa no dia 17 de junho de 2010, linda, saudável e tranquila. Tive meu sonhado PD [Parto Domiciliar], mas fui transferida 6 horas após o seu nascimento para o hospital, eu não conseguia terminar o parto, minha placenta estava retida e eu estava com hemorragia, era essa parte que eu insistia em contar apenas como uma fatalidade e que não me convencia.

Engravidei no susto, chorei dois dias e logo depois disso entrei em uma conexão profunda e transformadora com a minha filha. Eu já sabia que era uma menina e já sabia que eu queria parir, eu queria, simples assim. Havia em mim o acesso a uma essência de fêmea, de mulher selvagem, eu olhava para aquele corpo se arredondando, minha filha crescendo dentro de mim e me enchia de uma força que eu nunca tinha imaginado. A maternidade tem fortalecido essa sensação a cada dia, mas eu posso ver claramente como tudo isso começou a brotar.

Eu já conhecia o caminho das pedras pela história de amigos próximos que viveram um parto humanizado e por observar a realidade de cesáreas de quase todos ao meu redor. Passei por duas médicas que não eram capazes de me dar o que eu queria, comecei a frequentar o Gama, conheci a Betina, mergulhei nas leituras e na lista da Maternas e encontrei meu caminho.

Minha maior força nesse processo foi conhecer a minha fragilidade, eu sabia que precisava de apoio e de boas condições para conseguir parir. Mas embora eu já estivesse cercada do apoio que eu precisava, eu sabia que precisava me enfrentar, eu era minha maior ameaça. Eu conhecia como ninguém a minha dor, o meu medo e a minha insegurança. Só eu sabia o tamanho do medo e da dor que existem dentro de mim e que o parto seria o encontro garantido com tudo isso. Não era o medo da dor do parto, era o medo da minha dor. Eu duvidava de mim todos os dias e sentia medo.

Foi o Marcelo, meu amor e companheiro que sugeriu um PD pela primeira vez. Ele queria muito participar efetivamente desse nascimento e proporcionar um ambiente acolhedor e respeitoso para mim e para a chegada da nossa filha. Eu tinha todos os bons motivos para escolher um PD, mas havia um outro, eu sabia que em casa a chance de conseguir ter um parto natural era muito maior e eu precisava das condições mais propícias para aumentar as minhas chances. Eu queria esse parto para a minha filha e para mim.

Embora duvidasse de mim todos os dias, eu afirmava, repetia e contava a todos que ia ter um PN [Parto Natural] e que ia ser em casa. Fui criando uma espécie de verdade, aquela crença de criança que inventa a história e começa a acreditar nela, à medida que eu ia afirmando e contado meu parto eu esperava que ele fosse se tornando mais real. Eu contava esse parto, imaginava, sonhava e sentia medo. Tudo junto, todos os dias.

A gravidez foi maravilhosa, eu me sentia plena enquanto aquela barriga crescia e minha filha ia se preparando para nascer, eu acessava através do meu corpo e de toda essa vida que em mim habitava o contato com o sagrado e com a mulher em mim, uma alegria inexplicável.

No dia 16 de junho (eu estava completando 38 semanas) acordei pela manhã, eram quase 10 horas, sentindo algo parecido com  uma cólica. Fui até o banheiro, vi o tampão e comecei a sentir dor de barriga. Eu sabia que meu TP [Trabalho de Parto] estava começando, e dentro de mim já tinha certeza que minha filha nasceria em breve. Nosso encontro estava próximo.

Liguei para a Betina e contei o que estava sentindo, eu nunca havia tido contrações na gravidez, perguntei se era sinal de TP. Ela confirmou, mas disse para eu ficar tranquila, podia demorar para engrenar. Disse que era para descansar e levar vida normal. Eu disse que queria andar com o meus cachorros (eu sabia que eles ficariam  sem andar um tempo comigo depois do nascimento da Clara e queria aproveitar), e ela, logicamente disse que eu podia andar a vontade. Sai para a primeira caminhada do dia, eu, três cachorros, sendo um meu  Rotweiller, minha barriga, as contrações, minha ansiedade e alegria, e claro, o medo, meu grande companheiro.

Liguei para o Marcelo e avisei que o TP tinha começado. Ele ficou em pânico e me perguntava como assim, dizia que ainda estava cedo (a gente não esperava um parto com 38 semanas) e por fim falou nervoso que ele ainda não estava preparado. Eu sabia que ele só estava nervoso, que ia estar lá comigo, o companheiro de sempre, mas na hora eu não sabia se batia nele, se chorava ou se ria. 

Almocei e liguei para a minha cunhada, a Carol. Ela ia fotografar meu parto e estava em Itu, por isso precisava ser avisada meio logo. Expliquei que o TP tinha começado, mas que podia demorar. Disse pra ela ficar tranquila e que a gente se falaria mais tarde.

Depois disso eu fui sentindo meu corpo e ia percebendo a intensidade das contrações aumentarem. Alguma coisa vinha lentamente, mas tinha uma força diferente agindo em mim, uma agitação de água, de vida. Eu pensava na Clara e ficava feliz que a gente ia se ver logo, eu imaginava seu cheiro, sentir o calor, conhecer seu rosto, seu corpo. Fiquei sentada num sofá pensando em tudo isso.

Depois, mais caminhada com os cachorros, eram quase 16 horas.

Teve uma hora que bateu um desespero com a casa, a gente tinha acabado uma reforma há duas semanas e como achava que ainda tinha umas duas semanas  pela frente estava tudo uma bagunça. Eu fiquei triste que a Clara ia nascer numa casa assim e liguei para uma amiga querida, a Fê, minha maga das flores. Contei que a Clara ia nascer logo e que eu queria encher a casa de flores para receber minha filha, precisava de um lugar lindo, minha filha merecia beleza. Ela, que é sempre cheia de amor e generosidade disse para eu ficar tranquila, que ela ia providenciar as flores para mim e para a Clara.

Depois disso eu comecei a organizar as coisas (surto de parto). Pedi para o Marcelo passar num mercado e comprar comida para mim e para e equipe, e disse para ele passar na Telha Norte e comprar varão de cortina. Eu realmente achava que a gente ia conseguir organizar a casa durante o trabalho de parto.

Mais no final do dia as contrações começaram a pegar. O plano era avisar a minha mãe só depois que a Clara nascesse e portanto eu precisava sair da casa dela logo pra gente não se encontrar. No entanto, a Dona Fátima (uma senhora linda que trabalhava lá) insistia em fazer uma sopa pra mim, ela dizia que eu precisava comer bem para ter forças. Combinamos que eu ia tomar a sopa e que minha cunhada, a Valéria, ia me pegar e me levar pra casa enquanto o Marcelo ia no mercado e na Telha Norte, a gente se encontraria em casa.

Enquanto eu tomava a sopa minha mãe chegou, eu fiquei quieta, ia me encolhendo quando vinha uma contração, e dava umas colheradas nos intervalos. Me despedi da minha mãe e da Dona Fátima e fui pra casa. Lembro que estava trânsito, eu ia sentindo dor no carro.

Chegamos em casa e a Betina que estava saindo de um parto do São Luiz foi até lá me examinar, deixar o sonar e conversar um pouco. Eram umas 20 horas, ela fez um toque e disse que eu estava com 1cm de dilatação e que a Clara estava encaixadinha (lembro do sorriso dela me dizendo isso, linda). Combinamos que ela ia para casa tomar um banho descansar um pouco e que mais tarde viria, e que qualquer coisa eu ligaria. A Valéria foi embora e a gente ficou de avisar quando precisasse de ajuda, ou quando estivesse próximo do nascimento.

A partir desse momento a dor começou a pegar. Eu buscava posição tentando encontrar alivio, caminhava, agachava, apoiava no sofá de joelhos. Era uma noite fria, o Má acendeu a lareira, trouxe cobertor, almofada, edredon, montou um ninho pra mim na sala.....mas não era lá o meu ninho, eu corri para o banheiro, sentei na privada e lá fiquei.

A Carol e meu irmão chegaram e eu lembro que embora eu já não conseguisse conversar a presença deles me alegrou.

Eu fiquei na privada, fazia muito cocô, sentia dor, tomava chá, pedia para escutarem o coração da Clara, cronometrava as contrações, até que uma hora eu disse para o Marcelo que queria ir para o chuveiro.

Subimos, a Betina tinha deixado uma bola, mas eu me atrapalhava e ainda tinha que tomar cuidado com o ralo que a bola tampava fazendo subir a água, achei um saco e disse que não queria a bola, o Má trouxe pra mim uma cadeira bem baixinha, de plástico.

Eu estava no chuveiro quando senti algo diferente, um ploft. Comecei a gritar para o Marcelo que alguma coisa tinha acontecido, ele me perguntava o que e eu dizia que eu não sabia. Era um medo grande tomando conta de mim, até que eu entendi que a bolsa tinha rompido. Nessa hora eu fiquei em pânico e pedi chorando para ele ligar para a Betina. Ela disse que já estava a caminho, que já imaginava que eu estava precisando dela e que chegaria em minutos.

Lembro que ela chegou e veio conversar comigo. Disse que eu estava bem, que estava tudo dando certo, mas que eu tinha um longo caminho pela frente. O Má preparou uma cama pra ela descansar e a gente combinou que eu chamaria quando precisasse de ajuda.

Eu passei a madrugada toda no banheiro, na privada. Olhando para esse dia eu sei que fazer cocô é um processo natural do parto, mas me conhecendo, eu posso afirmar que eu cagava de medo, eu cagava todos os meus medos.

Sim, eu sou protagonista em diversas áreas e momentos da minha vida, e eu estava assumindo o nascimento da minha filha como um processo meu, também do meu marido pois eu estava parindo a sua filha, mas era acima de tudo meu.

Eu me coloquei nessa historia como protagonista, mas eu sabia o que isso me custava, eu inventava a coragem e a força que eu achava que não existia em mim. Eu duvidei de mim o tempo todo e dei a mão para o medo e para a solidão e passei com eles essa madrugada inteira. Cada contração que vinha era um mergulho em mim e eu tentava desesperada abrir caminho para minha filha dentro do meu corpo, dentro dessa escuridão em mim.

O parto é um momento que nos dá a dimensão exata da potência de um corpo e da vida, mas também traz a dimensão precisa da nossa solidão e da morte, aquele caminho só podia ser percorrido por mim e era só de mim que a Clara dependia. Parir era morrer um pouco, era transformar, era virar outra pessoa, conhecer a filha e a mãe.

Eram 6 da manhã quando eu pedi para chamarem a Betina. Ela veio pra perto de mim a gente se olhou e eu comecei a chorar. Ela me perguntou por que eu estava chorando e eu respondi que eu tinha medo de saber em que situação eu estava. Ela me respondeu que só esperava que meu colo estivesse bem fino e que se isso já tivesse acontecido estava tudo bem. Depois de me examinar ela me avisou que eu estava com 3 cm de dilatação e nesse momento eu desabei. Falei que eu não daria conta, que não estava dando.....Ela me olhou, disse que poderia me ajudar, mas que seria doloroso e que eu precisaria ajudar também. Nas contrações ela me ajudou a dilatar, doía e me trazia alguma esperança. Ela me avisou que eu tinha chegado em 6 cm e que dai pra frente a gente deixaria as coisas acontecerem naturalmente.

Foram momento difíceis, de dor e de cansaço, mas eu me lembro também de alegrias, boas conversas, muito cuidado e carinho comigo. Eu recebi tanto amor e apoio que sai do meu PD ainda mais confiante nas pessoas, eu sei o que pessoas comprometidas e amigas podem fazer, sei até onde elas vão por você.

E tinha o Marcelo lá, sempre do meu lado, me olhando, dizendo que eu estava indo bem, me dando apoio com seu corpo, com seu colo, com a sua presença. A gente se beijou, riu, eu chorei nos ombros dele, aquele homem que me via ali revirada, alterada, frágil e forte ao mesmo tempo me oferecia sempre um olhar de cumplicidade que eu nunca vou esquecer, eu lembro da alegria e da ansiedade que o olhar dele revelava.

Lá pelas 10h eu cheguei nos 10 cm. Eu me lembro de muitos momentos em que eu desistia e pedia ajuda, hospital, episio, anestesia, pancada na cabeça, qualquer coisa e eu queria muito parar de fazer cocô. Lembro muito também da Betina me incentivando, ela me olhava e dizia que era como se eu tivesse subindo uma montanha e que eu já estava chegando no topo. Lembro que cada vez que ela ouvia o coração da Clara, ela me olhava com um sorriso no rosto e dizia: Eita, menina. Minha menina estava lá dentro, forte, aguentando, me dando força, nascendo! Lembro dos carinhos do Má, do olhar de amor da Valéria, da postura forte da Carol, do mel, da torrada, do sorvete, dos chás, das luvas cheias de água que eles esquentavam no microondas e colocavam na minha barriga e na minha lombar. Lembro de uma massagem gostosa da Betina nas minhas costas, dos carinhos no meu rosto, dos abraços do Marcelo, da Valeria rezando comigo. Lembro da água no meu corpo, daquela barriga linda e amada que eu ia olhando e me despedido..

Teve uma hora que minha mãe ligou, a Betina estava de frente pra mim (eu estava num banquinho, dentro do box do banheiro) com o telefone na mão porque ela tinha acabado de ligar para o Cacá avisando para ele vir e ela atendeu. Lembro dela respondendo que eu não podia atender, que estava ocupada e aí minha mãe quis falar com todo mundo que estava na casa. O Marcelo convenceu minha mãe a não vir e disse que avisaria assim que a Clara nascesse.

As meninas tiveram um trabalho insano para encher a banheira (subindo panelas e baldes de água quente), eu entrei e achei horrível, sentia aquela marca de água que acabava na altura do meu peito e voltei correndo para o banquinho que me esperava no box.

Teve uma hora que eu virei para a Betina e falei que eu não ia fazer mais nada, que eu não tinha mais força e que não ia mais fazer força. Ela me olhou tranquila e me disse que tudo bem, que a Clara ia nascer se eu não fizesse nada, mas que ela precisaria de mais tempo para fazer isso sozinha. Aí eu pensei na minha filha nascendo sozinha, sem a minha ajuda, e percebi que ainda havia força em mim e que essa história era nossa, a gente precisava fazer isso junto, a gente se ajudava.

Quando a cabeça da Clara começou a aparecer a meninas vibravam, eu comemorava também, mas ao mesmo tempo eu sabia que havia algo muito importante para fazer e pensava: Essa menina precisa nascer, eu preciso tirar ela daí.

Minhas contrações eram curtas e irregulares, eu não tinha tempo para fazer força suficiente para empurrar a Clara, ela ficava indo e voltando no canal. De novo bateu o desespero e a Betina veio falar comigo. Ela disse que poderia me ajudar, mas que para isso precisaria me dar um pouco de ocitocina. Perguntou como eu me sentia em relação a isso e eu disse que topava qualquer coisa. Nosso combinado era que eu não queria nenhuma intervenção, eu tinha pedido muito para me ajudarem a não tomar anestesia, mas nesse momento eu realmente precisava de ajuda.

Talvez a partolândia me faça confusa, mas a lembrança que eu tenho é que logo depois disso a Clara nasceu em 3 contrações. Eu estava de cócoras no banquinho dentro do box, o Marcelo me dando apoio nas costas, a Betina no chão de frente para mim. Não consegui olhar enquanto a Clara nascia, eu só sentia.

Clara nasceu quieta, veio para os meus braços, eu senti aquele corpinho quente, aquele cheiro de vida, de milagre, de Deus, de natureza, era o cheiro do amor e eu nunca senti tanta vontade de proteger e de cuidar de alguém. Vi seu rosto e achei ela linda. Eu e o Marcelo chorávamos tanto, ela começou a chorar também e eu ia beijando seu corpinho, aninhando aquele bebê no meu colo. Nasceu a mãe, nasceu a filha, o pai, a família!

A Betina pediu para o Marcelo cortar o cordão, eu questionei. Ela respondeu que já tinha parado de pulsar e que tinha que me tirar dali por que eu estava sangrando. Entregaram a Clara para o Cacá e me carregaram para a minha cama.

Na cama, eu não conseguia expelir minha placenta e para dizer a verdade, eu não tentei. Depois do nascimento da Clara eu não tinha mais força e me entreguei numa atitude de submissão e cansaço, eu queria ser cuidada, eu queria que resolvessem aquilo por mim (exatamente o oposto do que eu queria viver) e não fiz absolutamente nada para tentar reverter esse quadro. Hoje sei que minha retenção de placenta está relacionada com tudo isso, sobretudo com o meu medo de terminar o parto, com a minha relação com a minha família e com a minha mãe, e também com a minha exaustão.

Fui para o hospital fazer uma curagem, fiquei longe da Clara por algumas horas (o que doeu horrores) e nos encontramos novamente às 23h num quarto de hospital, ela dormia lindamente.

Esse parto me doeu e me alegrou durante todo esse tempo, eu vivi um PD, fiquei rodeada de pessoas maravilhosas, minha filha nasceu num ambiente de amor e respeito. Mas eu também vivi a frustação do descontrole, do inesperado, e sobretudo, a dor de lidar com meus limites, de me conhecer e me enfrentar.

Hoje eu entendo que esse parto é igual a vida e é igual ao que eu sou,  sendo assim eu agradeço e aceito. E mais do que isso, eu celebro a vida da minha filha, as vitórias que eu alcancei, o parto que eu consegui realizar. Eu vi minha filha nascer, eu pari, a peguei no meu colo e senti o seu cheiro. Senti o cheiro da vida e do amor. Chegou o tempo de entendimento e de superação, tempo em que o corpo e a vida já chamam por mais vida. Viva a maternagem!

Para a Clara
Para o Marcelo
Para a Carol
Para a Betina
Para a Valéria
Para o PC
Para a Fê (que encheu o quarto do hospital e a minha casa de flores)
Para as maternas
Para a Ana Cris
Para a minha mãe

Com todo o amor e gratidão.

terça-feira, 13 de março de 2012

XVI - Qual é a próxima aula? - parte 2

Ele senta em sua carteira no fundo da classe, ainda sem lembrar o que está por vir. Os colegas começam a vasculhar suas mochilas e vão tirando uma tralha de dentro delas. A professora entra e ao vê-la o rosto do menino se ilumina: a próxima aula é de arte!

sexta-feira, 9 de março de 2012

XV - Qual é a próxima aula?

O menino corre atrás da bola quando escuta o sinal que anuncia o fim do recreio. Sua expressão quase que incontrolável é de indignação - mas já?! - enquanto ele continua correndo, em busca daquele chute que havia calculado. Mas não tem jeito, ele sabe que a professora não tolera atrasos...

Ainda ofegante, se dirige ao pátio, com as faces coradas, o cabelo molhado de suor e o uniforme encardido. Apesar disso - ou, melhor, por causa disso! - os olhos brilham e ele sorri largamente a cada colega que encontra.

Sempre há tempo para um gole d´água, que acaba transbordando para o rosto, escorrendo pelo pescoço e contribuindo para o desalinho das vestes.

Olhando pro chão, com a cabeça no jogo inconcluso, ele caminha pelo corredor em direção à sua sala e de repente se pergunta: "Qual é a próxima aula?".

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

XIV - Sexo: falar é mais difícil que fazer

Quando a gente teoriza sobre alguma coisa - ou quando teorizam pra nós - a frase "ah, falar é fácil" acaba surgindo. E no geral é bem verdade... podemos ficar conjecturando sobre mil assuntos, elocubrar soluções salvadoras para o futuro da humanidade, mas na hora do por a mão na massa a coisa é bem diferente. Em geral, falar é mesmo fácil e fazer, realizar, concretizar, que é o difícil.

Pois percebi que quando o assunto é sexo é exatamente o contrário! Até ensaiei uma fala aqui, com a promessa (ou seria ameaça?!) de continuar o assunto, mas sabe o que? Não consigo! E o problema não é a fala em si, mas a falta de cacife pra bancar esse tabu. Minha escrita é muito real, isso que você lê sou eu e me dei conta de que não consigo ficar nua na praça... ou, mais forte ainda, não vou colocar meu marido nu na praça, afinal, não tem como falar em sexo sem envolvê-lo, direta ou indiretamente.

Quando resolvi que falaria sobre o assunto seria no contexto da maternidade, uma vez que tinha me dado conta de que uma relação saudável e franca com a sexualidade é um importante ponto de partida para vivenciar a gestação, o parto e a entrada nessa nova vida de mãe. Os objetivos dos meus blogs sempre são, primeiro, o da auto reflexão (ao escrever organizo as ideias e isso é tão forte que várias vezes já mudei de opinião ao longo do texto!) e segundo, o de compartilhar experiências, sensações e pensamentos, ajudando aqueles que gostam de aprender também com a experiência alheia.

Então arregacei as mangas e fui escrever. Mas como, apesar de gostar muito de escrever, não sou teórica, fui também fazer a pesquisa de campo! E aí percebi que não dá pra ter uma relação saudável e franca com a sexualidade estando envolta no manto azul celeste de Nossa Senhora... (falo por mim, sempre falo por mim!).

E ao mesmo tempo vi que eu não conseguiria escrever publicamente sobre isso. Vou voltar aos meus cadernos...

Mas para não deixar meus queridos leitores na mão (aliás, já pensou sobre a origem dessa expressão?), vou falar um pouco sim sobre o assunto, mas tirando o meu da reta (essa é menos sutil).

Quando assisti a palestra do Michel Odent comprei um livro dele: Água e Sexualidade - a importância do parto ecológico. O título é enigmático... o que seria exatamente um "parto ecológico"? O que água, sexualidade, parto e ecologia tem a ver? Recomendo a leitura, mas advirto: antes de terminar o quarto capítulo você vai estar querendo ir morar na praia ou à beira de um lindo rio ou no mínimo cantando a plenos pulmões com a Elis quero um lago limpo de água potável!

Enfim, o que quero citar do livro é justamente o que me consola nesse fracasso em falar sobre sexualidade: a necessidade de mistério! O autor chama a atenção para o fato de que o erotismo precisa de mistério. O erotismo é a arte de esconder um pouco de pele, mantendo assim um certo mistério, diz ele e complementa: a atmosfera é mais erótica num baile de máscaras do que num campo nudista.

Lendo assim sinto isso tão claro e óbvio, mas por outro lado tenho uma certa dificuldade em assimilar de forma prática, pois geralmente sou bem explícita! Não quero ter dúvidas se o interlocutor está entendendo o que estou falando, então faço questão dos pingos, acentos, vírgulas e pontos... não deixo muita margem pra mistério... mas é um exercício interessante deixar as coisas "no ar", ver pairando alguns pontos de interrogação, ser atravessada por aquele olhar que vasculha os recônditos da alma, deixar um sorriso de Monalisa intrigar alguém.

E então eu vejo que o manto azul celeste da Nossa Senhora é realmente pesado demais, mas um véu de Sherazade pode ser um adereço interessante, ora mostrando uma das pernas, ora as costas, ora escorregando sem querer... ui!

Pois é, sob esse véu então, por enquanto só tenho a dizer que estou fazendo a lição de casa, não necessariamente em casa, não necessariamente do jeito que a professora pediu... será que vou passar de ano?

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29 de fevereiro de 2012 - Dia de comer Nhoque da Fortuna!


Acabei de publicar a postagem e já deu vontade de acrescentar coisas... é que de repente penso que essa necessidade de deixar tudo tão explícito venha da ausência dos mistérios das iniciações, onde esse mistério é partilhado por um círculo de pessoas e continua misterioso para as demais. Na nossa organização social as iniciações parecem não ter mais espaço, está tudo no Google, busca-se compulsivamente por informação, justamente porque esses círculos seguros dos iniciados mais experientes não mais existem. Estamos órfãos e perdidos...


Essa reflexão me veio ao assistir um vídeo de um parto em casa. A iniciação mais linda e forte da minha vida foi ver a Clara nascer, foi ver a mãe Carol Mendes nascer, ao vivo e vivenciando cada uma das 14h do trabalho de parto que acompanhei (e ainda teve as que não acompanhei...). E essa é uma iniciação importante, à qual toda mulher tem direito. Acompanhar o nascimento do sobrinho, do afilhado; amparar o nascimento do neto, do sobrinho, do afilhado (no caso das mães já iniciadas, que dão suporte às iniciantes...). Esse círculo de mulheres é tão importante, esse suporte é tão necessário e no entanto, quem vê crianças nascerem hoje em dia? Quem vê crianças nascerem de forma natural hoje em dia? Que consequências isso tem na formação das pessoas?


Os videos de partos que assisti também me foram extremamente úteis e vejo que a proliferação desses vídeos possa ser uma reação à necessidade das iniciações, usando as ferramentas disponíveis, mas espero que essa reação seja como uma febre, que é uma medida drástica do corpo para reorganizar seu equilíbrio. Não vou tomar antitérmico, pois sei de sua importância, mas espero que a febre passe... 

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

XIII - Quando a gente se dá conta de que passou dos limites?

Ou: processos graduais são mais facilmente assimilados.

Portanto, se o processo é num sentido de crescimento e evolução, maravilha, mas se é num sentido de deterioração, perigo! Porque como são graduais, cada pequeno passo vai sendo metabolizado de uma forma quase imperceptível e precisamos fazer um certo esforço para manter a clareza de onde estávamos e onde viemos parar.

Quanto aos sentidos de crescimento e evolução, tenho vivenciado essa dinâmica com a prática do Método DeRose, que é muito forte, mas preserva a integridade do praticante (física, emocional e mental) fazendo com que ele suba pequenos degraus e ainda possa parar para descansar ao longo da jornada. Dessa forma a paisagem vai sendo compreendida aos poucos, sem sustos, sem sobressaltos, mas com o encantamento das pequenas descobertas, porque senão seria um tédio!

Nos processos na direção oposta tem vários exemplos, em termos de humanidade. Na área de meio ambiente (com a qual sou mais familiarizada) é gritante. Exemplo bobo, das embalagens. Volte 50 anos e observe como eram as embalagens... agora veja como são hoje... se naquela época, há 50 anos, fosse feita uma mudança radical de embalagens, deixando tudo como é agora, possivelmente as pessoas achariam um absurdo e a moda nem pegaria... mas como as mudanças foram acontecendo aos poucos, parece que ninguém se deu conta.

Com alimentação percebo a mesma coisa, com esse tanto de coisas industrializadas que consumimos (e que acaba tendo a ver com o exemplo das embalagens...). Também os hábitos de transporte, comunicação, relacionamentos... não quero dizer que o "antigamente" que é o bom, pois muitos avanços vem sendo feitos e evoluir é preciso, mas nesse tema de "estar longe da natureza" estamos sim nos distanciando cada vez mais e isso me preocupa, porque pra mim a natureza é perfeita e é ela que manda (ou deveria mandar).

Todo esse preâmbulo para falar das formas artificiais de ter um filho! Aproveito pra falar agora, enquanto ainda não tenho filhos e nem estou grávida (pra ninguém dizer: "ah, é fácil falar quando você tem o seu filho nos braços!") e sei que corro o risco de repensar isso tudo se encontrar dificuldades para "produzir" um filho - embora ache essa chance muito, mas muito remota mesmo (não a chance de ter dificuldades para produzir um filho, mas a chance de repensar minha opinião sobre o assunto... e se um dia eu fizer isso, me faça um favor: imprima esse texto e cole no meu espelho!).

E sabe do que mais? Não sou eu que vou falar, mas a Eliane Brum e três psicanalistas especializadas no tema! Quando eu li essa matéria tive até falta de ar e o chacoalhão desmontou o processo de assimilações graduais que fazem tudo parecer "normal" (não que eu achasse normal fazer criança em tubo de ensaio, mas também nunca tinha refletido a fundo sobre o tema).

Lá vai a bomba:
Reprodução assistida - ou desassistida?

Mas vou deixar também minha opinião a respeito do assunto, que sempre foi a seguinte: se a natureza não está permitindo que a coisa aconteça, então não é pra acontecer! Pra que forçar a barra?!

Mas aí, lendo a matéria que acabo de recomendar, me deparo com uma informação chocante: muitos casais que recorrem à reprodução assistida NÃO FAZEM SEXO!!! Depois eu critico essa cultura de mãe virgem e falam que eu sou "ousada"... tenha dó viu!

E pra chutar o pau da barraca, não me espantaria dar de cara qualquer hora com a seguinte notícia:

Universidade XYZ desenvolve o primeiro útero artificial


Pesquisadores da Universidade XYZ divulgam resultados otimistas acerca de seu mais novo experimento: um útero artificial. O aparelho, que reproduz exatamente as mesmas condições do órgão humano, torna possível a gestação de embriões, desde sua fertilização até a conclusão do desenvolvimento do feto.


A inovação revolucionária poderá salvar a vida de milhares de crianças que seriam abortadas, garantindo sua sobrevivência. Poderá ainda abrigar fetos em qualquer estágio de seu desenvolvimento, como por exemplo em situações que a gestante sofreu um acidente ou contraiu alguma doença, situações essas em que um aborto poderia ser inevitável.


Ainda em fase de testes, o equipamento já é aguardado com grandes expectativas.

Juro que não ia ficar surpresa... ficaria é claro muito triste, com a esperança na humanidade abaixo de zero, mas não surpresa...

E não para por aí... depois de ser testado e aprovado, depois de ter "salvado" sua primeira criança e cair no gosto do povo, também não me espantaria que a geringonça fosse usada indiscriminadamente, sob os mais variados pretextos, tais como:

Mulher, pra que deformar seu corpo com aquele barrigão enorme? Deixe seu filho crescer em um ambiente especialmente desenvolvido para isso! [como se o corpo feminino não fosse!!!]


Mulher, pra que passar pela dor, desconforto e riscos de um parto? É só abrir uma portinha e seu filho estará lá, prontinho! [esse acho que seria o argumento mais aceito!]


Mulher, pra que se preocupar com o que você come, bebe e fuma durante a gravidez? Deixe seu embrião conosco e ele será alimentado com o que existe de melhor para se tornar uma criança saudável! [é muita pretensão né?]

Tá bom, ou quer mais?!

Acha que eu fiquei doida de vez?!

Pois foi exatamente isso o que aconteceu com a cirurgia de extração de feto, conhecida também como cesariana. E é exatamente isso o que está acontecendo com o procedimento para fabricar crianças em tubos de ensaio, conhecido como reprodução assistida. Tuuuuuuudo cheeeeeeeeeio de boas intenções e de méritos médicos e tecnológicos, com a nobre intenção de salvar (e gerar) vidas! E ainda com um bônus: certificado de status social! Que maravilha...

Será possível que o futuro da humanidade é estar cada vez mais longe da natureza? É negar cada vez mais a natureza? Por que o ser humano precisa tanto dessa auto afirmação? (eu me viro sozinho, consigo até "fazer gente" - como se antes não conseguisse!!!).

Olha, falta muito pouco pra eu resolver largar mão dessa sociedade doente e viver num meio de mato ou beira de praia (mas aí me lembro do meu querido Professor Marcos Sorrentino, que trabalha com educação ambiental, dizendo que por mais que a gente se isole, nunca teremos a certeza de que não virão poluir nossa água e queimar nossas florestas... então resisto mais um pouco, tentando evitar que poluam as águas, que queimem as florestas e que sufoquem os superpoderes que a natureza nos deu tentando substituí-los por enfraquecimentos manipuladores!).

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

XII - Pensando naquilo

Só pessoas burras e/ou doentes desvinculam maternidade de sexualidade. Não entra na minha cabeça essa cultura judaico cristã de mãe virgem...

Pois então prepare-se: O Filho do Aralume não é filho de mãe virgem! E como sexo é condição primeira para maternidade, o tema estará presente aqui no blog (ah, sim, a não ser que você faça fertilização in vitro, mas não vou falar sobre isso... agora). Tem uma postagem no Aralume (veja aqui), mas por mais que aquele seja um ambiente onde eu me sinta muito à vontade, mesmo assim não consegui colocar o assunto com a frequência e forma que gostaria... aqui é diferente, pelo menos eu tenho um "pretexto nobre" para falar sobre sexo, que é ter filho!

Vou começar de mansinho, pra não espantar ninguém (espero!).


Pensando naquilo

Eu gosto logo que acordo, depois do almoço e antes do jantar.
Sem pressa.
Prefiro na cama.
Quando não é em casa parece mais fácil desligar do mundo.
Mas não pode ser em qualquer lugar.
Pode ser sozinha, pode ser a dois. A três, não sei como é.
Melhor sem ninguém por perto.
A trilha sonora, se não for muito boa, melhor não ter.
Luz baixa, um abajur, o sol pela fresta da janela, uma lareira...
Cena de cinema: na praia sob o luar, na beira de um rio a pleno sol
Sem roupa. Nenhuma.
Sem pano, só pele.


PS - o teor dessa postagem foi altamente influenciado pelos 18 dias que estou longe do Paulo Cesar =D

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

XI - Treinamento intensivo pré maternidade

Na postagem número VI do Filho do Aralume falei um pouco sobre as coisas que queria fazer antes de ser mãe e de como imaginava me preparar para essa jornada...

Bem, tratei de arrumar um "pacotão zipado" pra dar conta dos meus anseios mais urgentes: uma longa viagem! Resolvi me presentear com uma viagem de um mês, como há muito tempo não fazia, só que agora com muitos ingredientes inéditos.

Foi nessa viagem que encaixei uma longa caminhada, como disse que queria fazer. Fiz a Trilha Inca, que foi uma caminhada de "só" quatro dias, mas que me proporcionou reflexões únicas e preciosas, "pra vida e pra prova", como dizia algum professor da faculdade. E como a gente faz planos para que eles se desfaçam, tive também um interessante exercício de lidar com imprevistos e mudanças substanciais nos planos. No último dia da Trilha Inca tivemos que alterar a rota e chegar a Machu Picchu como fazem todos os turistas: de ônibus e sem nenhum glamour... fazendo uma analogia tosca, se essa viagem fosse um parto, eu teria sofrido um bom tempo com contrações para acabar em um hospital tendo uma cesárea. Não vou dizer que ficaria ok com isso, como também não fiquei com o fato de conhecer Machu Picchu assim, mas é sempre bom ir cultivando a maleabilidade para enfrentar as mais diversas situações!

Talvez aqui a diferença é que meu objetivo na Trilha Inca não era o fim, mas o percurso; meu objetivo não era conhecer Machu Picchu, mas sim desfrutar do treinamento para chegar até lá. E com um parto seria quase que o contrário, rs... o objetivo não é exatamente desfrutar do trabalho de parto (embora eu saiba que ele tenha uma importância crucial), mas o objetivo é parir.

Encaixei também nessa viagem um período de experiência solitária, que foi metade da viagem, um tempo considerável. Eu nunca fui uma pessoa muito gregária e ficar sozinha é vital pra mim de vez em quando. Como nesse momento, de preparo para essa grande mudança na vida. Esse período solitário teve então dois objetivos: estar comigo mesma e experienciar o desafio de "me virar" sozinha em um país diferente.

Não poderia ter sido mais rico!

De brinde, vi que não preciso e nem quero estar sozinha por longos períodos. Esse tempo também serviu para valorizar ainda mais as coisas que tenho, como meu marido, minha família, meus amigos, meus cachorros e todas as "mordomias" que tenho no meu cotidiano. Não que eu precisasse, pois costumo ser sempre muito grata, mas um reforço de vez em quando é bem vindo.

Sinto também que no campo das viagens estou mais aquietada. Amo viajar e vou continuar viajando sempre, mas o que quero dizer é que se eu precisar ficar mais "sedentária" por algum tempo, beleza... e depois viajo junto com o filhote, carregando-o nas costas como as mulheres bolivianas e peruanas =D

Por outro lado, resolvi que enquanto eu não engravidar, a cada mês farei alguma coisa extraordinária! Será um tipo de "prêmio de consolação" por "não ter conseguido" (ainda vou escrever sobre a expectativa que acompanha essa decisão, pois o fato de eu "resolver" que quero ser mãe não implica necessariamente em que isso ocorra...). A cada mês que eu constatar que não estou grávida, vou "aproveitá-lo" fazendo coisas que eu não faria se tivesse engravidado!

É curiosa essa sensação de que a vida está acabando e que preciso me apressar em fazer tudo o que gostaria. Você pode achar loucura, mas eu sinto exatamente como se estivesse me dirigindo para um tipo de morte. Não vida e morte com as conotações de "coisa boa" e "coisa ruim", como costumamos entender, mas com conotações cíclicas: a morte como fim de uma etapa, para que logo em seguida outra comece. E é uma sensação muito interessante... deve ser assim que os reencarnacionistas se sentem. Ao mesmo tempo eu estou tranquila; me sinto, de certa forma, preparada. Mas se me é dado mais um tempinho, corro para aproveitá-lo... como eu já disse em algum texto sobre morte-vida, meu tempo sempre foi muito bem aproveitado e eu só faria mais cosias na minha vida se tivesse mais tempo.

Essa viagem também me permitiu ficar mais perto da minha natureza, me observar melhor, sob as mais diversas circunstâncias. Consegui encurtar alguns passos na jornada rumo ao meu interior e a paisagem que vislumbro me agrada. Percebo também que essa paisagem vai se modificando com a caminhada... dependendo do pequeno desvio ou ajuste de rota que faço, enxergo um ângulo que antes não estava visível... o que parecia muito pequeno à distância, conforme me aproximo vejo que tem uma magnitude inesperada... outras coisas, que às vezes assustavam em suas formas fantasmagóricas da penumbra noturna, tornam-se inofensivas com o raiar do sol.

E o mais importante: descubro que "o meu interior" não é um lugar encurralado num canto do mundo; não é um fim em si mesmo; é uma jornada eterna, pois a Terra é redonda e sempre tem algo mais a ser explorado depois "daquela" montanha!
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02 de fevereiro de 2012 - Dia de Iemanjá!


O problema é que agora eu não paro de ter ideias de "coisas extraordinárias" pra fazer enquanto não fico grávida... não é que eu esteja pensando nessas coisas, aliás, fiz um acordo comigo: a cada constatação da não-gravidez eu penso em algo extraordinário e dou conta de fazê-lo em duas semanas (também é um exercício de agilidade e jogo de cintura, rs...); sem ficar planejando e nem adiando; sem ficar fazendo "lista" das coisas que eu quero fazer. Só que as ideias surgem!!! Eu não procuro, elas que aparecem!


PS - e esse papinho de "estar mais aquietada no campo das viagens" é a maior balela! Basta ficar uma semaninha em casa pra dar vontade de colocar a mochila nas costas de novo. Que tormento!!!