O Filho do Aralume é um espaço pequeno e acolhedor para falar, pensar e sentir a maternidade. Mas não pense que o papo é morno, ou cor de rosa, ou água com açúcar. É pra quem não compra pacote pronto, é pra quem leva a vida a sério!
quarta-feira, 12 de setembro de 2012
Filho, no fim de semana nós fomos pra Cardoso, a terra da família do seu pai. É looooonge... no caminho me deu uma vontade de tomar suco de tamarindo. E não é que chegando lá, na casa do "Tio Montinho", tinha polpa de tamarindo?! Mas não era dessas industrializadas, não! Era uma polpa fresquinha, artesanal, feita pela cunhada da vizinha da prima da tia (lá todo mundo é parente!). O suco estava uma delícia e depois seu pai foi num sítio que tinha um pé de tamarindo, aí ele colheu um monte pra nós. Estou aqui chupando "balinhas" de tamarindo, azedinhas, gostosas, cada semente uma balinha... rende que só!
terça-feira, 4 de setembro de 2012
Ser mãe em uma civilização patriarcal
Foi quando comecei a praticar yôga, um yôga de linha tântrica* e, portanto, matriarcal, que foi sendo chamada a minha atenção para essa dualidade, para o fato de que nossa civilização é patriarcal e como isso pode ser muito triste e prejudicial, não apenas para as mulheres, mas para toda a humanidade.
Logo em seguida, quando conheci meu querido Dr. Edison (conheça-o também aqui), a temática ficou ainda mais presente, pois era tema frequente em suas falas os prejuízos catastróficos do que ele chamava de "patriarcado econômico", que é esse sistema maluco no qual estamos todos imersos e do qual não sabemos como sair...
E agora, mais uma vez a terminologia e suas definições vem à tona, na fala da escritora argentina Laura Gutman (também peça do meu quebra-cabeça, saiba aqui), que tive o imenso prazer de ouvir e assistir esse domingo, no primeiro evento que ela participou no Brasil.
Pois bem, sendo as palavras da Laura as mais recentes, vamos a elas:
A civilização patriarcal está baseada na conquista e na dominação, enquanto que uma civilização "matrifocal" (esse termo é novo pra mim) baseia-se na liberdade sexual, na solidariedade e na ecologia.
Adendo meu, com base nos estudos anteriormente citados: as civilizações patriarcais tiveram início em um período de guerras e conquistas, alguns milhares de anos antes de Cristo, só pra situar um pouco o contexto histórico. Não sei direito por que raios esse povo resolveu que tinha que guerrear e conquistar, mas o fato é que eles tinham como objetivo formar guerreiros, pois disso dependiam suas vitórias. E guerreiros não se formam na barra da saia de suas mães... e mães que deixam fluir seus sentimentos e intuições não permitem que seus filhos sejam delas separados... e assim surgiu a repressão e a ordem de banir qualquer tipo de sensorialidade... mesmo porque, de que servem guerreiros "sensíveis"?!
Voltando à Laura, veja como ela elenca as principais ferramentas do patriarcado (comentários meus em itálico):
- Separação do bebê do corpo da mãe: o bebê sente raiva e se torna uma pessoa agressiva (isso é genial para formar guerreiros!)
- Mãe que permite a separação, afinal, ela já sentiu raiva e já sofreu separações (por conta de um sistema repressor, que pune sem dó qualquer um que saia da estratégia estabelecida)
- Repressão sexual (é justamente por esse detalhe que o Tantra é equivocadamente associado a exotismos sexuais... interpretação de quem foi e é absolutamente reprimido em todos os seus prazeres): corpo é pecado, contato é pecado, prazer é pecado. O melhor é não sentir. (Claro! Imagina um soldado em campo de batalha buscando o prazer! Imagina um soldado sentindo solidariedade por um inimigo! Imagina a mãe sentindo falta do seu filho...). Essa é a principal ferramenta da conquista.
E para que o "mal seja cortado pela raiz", o sistema patriarcal tratou de fazer com que as mulheres parissem em cativeiro, em uma situação tão insólita, tão diferente do seu "habitat natural", que faz com que ela mal reconheça sua cria, dificultando, ou melhor, impedindo, um contato verdadeiro e profundo entre mãe e filho, facilitando, dessa forma, sua separação.
Sim, meus caros, a civilização patriarcal é baseada na crueldade (palavra da Laura).
O seminário dela abordou muitas outras coisas, mas por enquanto vou me ater a esse aspecto, no qual tenho interesse particular, justamente porque estamos tão imersos nessa civilização e temos tão poucos registros de outra possibilidade, que ter ações fora do sistema parece algo intangível, mas ao mesmo tempo vital.
Uma portinha, apontada pela Laura, é se observar em ações e vocabulários simples, que são grandes armadilhas. Por exemplo: combater é um verbo e uma ação essencialmente patriarcal. Mesmo que você queira "combater a violência"... você está em combate, percebe? Você está se transformando em um guerreiro e, das duas, uma: ou o guerreiro sufoca até a morte seus sentimentos, ou ele sucumbe, sucumbindo também sua batalha.
O que dizer então do verbo conquistar? A conquista é um grande pilar do patriarcado. Dizer que queremos "conquistar o afeto, conquistar o amor" é mais uma dessas armadilhas. Parece bobo? Então vale a pena estudar um pouco o poder das palavras (Laura falou disso também, especialmente das palavras proferidas de mãe pra filho).
Outra portinha aberta pela Mestra é que, segundo um pensamento matrifocal, a mudança deve ser interna, íntima e pessoal. "Mudar o mundo" é o equivalente a "conquistar o mundo" e isso é patriarcal, isso é repressor, isso é dominador... e não é assim que as coisas vão dar certo...
Eu, sinceramente, saí de lá com o coração tranquilo. Eu, que tenho ímpetos guerreiros, que me identifico com as Amazonas, que muitas vezes quis empunhar bandeiras e ir para o campo de batalha, comecei a entender que o que eu menos quero são batalhas; comecei a entender que o meu protesto é não participar disso; comecei a entender que a minha contribuição limita-se a, no máximo, escrever, já que lê quem quer e aplica quem tem vontade e identificação. Vontade é um termo que considero, aqui na minha insignificância, bastante matriarcal. Se tem vontade, faz, se não tem, não faz. Simples assim. E dessa forma vamos dando ouvido a nossas vontades, que vão surgindo de forma cada vez mais clara e objetiva e são as guias mais preciosas para nossa felicidade e bem estar. E uma comunidade feliz só pode ser feita com pessoas felizes...
E sabe qual é a sensação mais forte que me veio com essa história toda? A sensação de que eu sou LIVRE. Se a mudança está em mim, e só em mim, isso me traz uma liberdade imensa. É difícil explicar... qualquer hora eu consigo...
Por fim eu gostaria de lembrar que uma civilização matriarcal, ou matrifocal, é aquela baseada em conceitos relativos não ao feminino, mas à maternidade. O "feminismo" já deu sua contribuição, mas não conseguiu sair da teia de um sistema patriarcal...
* segundo aprendi com meu Mestre, as inúmeras linhas de yôga dividem-se, entre outras coisas, em duas tendências de fundamentação filosófica, que são o Tantra e o Brahmachárya. Essas correntes dizem respeito a filosofias comportamentais, sendo que a primeira, mais antiga, caracteriza-se por ser matriarcal, sensorial e desrepressora e a segunda, surgida em meio ao período de guerras e conquistas, carateriza-se por ser patriarcal, anti-sensorial e repressora. Infelizmente (na minha opinião, é claro!), a grande maioria das linhas de yôga baseia-se na segunda corrente filosófica, embora muitos instrutores nem se atentem a isso e os praticantes muito menos.
Agora foi a vez do seu avô pai do seu pai. Pra ele a encomenda foi de açaí! É que ele tem uma fazenda no Pará (que, aliás, está se preparando para ser uma grande produtora de açaí) e é só por lá que se encontra o açaí "de verdade", sem adição de guaraná e açúcar, que tiram totalmente o gosto original dessa frutinha deliciosa.
Claro que o pedido foi atendido prontamente e com a fartura que caracteriza sua família paterna! O congelador ficou lotado de saquinhos de açaí, que dividimos com seus priminhos.
Quanto a mim, fiquei com a boca roxa e a gente gostou tanto, mas tanto, que fico até economizando a iguaria. Tenho certeza que você também vai gostar e vai comer lá, no Pará, de pés descalços pelo terreiro, a caminho de algum igarapé :)
Claro que o pedido foi atendido prontamente e com a fartura que caracteriza sua família paterna! O congelador ficou lotado de saquinhos de açaí, que dividimos com seus priminhos.
Quanto a mim, fiquei com a boca roxa e a gente gostou tanto, mas tanto, que fico até economizando a iguaria. Tenho certeza que você também vai gostar e vai comer lá, no Pará, de pés descalços pelo terreiro, a caminho de algum igarapé :)
quarta-feira, 29 de agosto de 2012
Você tem uns avós tão bacanas... hoje vou falar dos "do meu lado". Outro dia liguei pra sua vó e falei:
- Mãe, to com uma vontade de comer sagu...
- Ah, não diga! De que?
- De abacaxi...
- Olha, comprei um abacaxi hoje! Vou fazer!
Isso foi à noite. No dia seguinte, logo cedo, fui lá e o sagu estava pronto, uma delícia!!!
Aí em outro episódio comentei com seu pai que estava com vontade de comer jabuticaba no pé. Ele disse na hora pra eu ligar pro seu avô e acabei não ligando... mas ontem ele veio aqui em casa e seu pai lembrou da história:
- Cassiano, sua filha tá com vontade de comer jabuticaba!
- Ah, mas eu sei onde tem, comi ontem! Vamos que eu te levo lá!
E lá fomos, na casa da Marisa e do Jonathas, amigos músicos que tem o privilégio de ter uma jabuticabeira no quintal!
Pelo jeito você já está se dando muito bem com esses avós, que atendem prontamente suas vontades ;)
__________________________________________________________
Agora lembrei de uma frase que seu vô falou lá de cima da jabuticabeira:
"Jabuticaba é que nem gente: pra estar boa tem que estar brilhando!"
Esse é o Cassiano...
- Mãe, to com uma vontade de comer sagu...
- Ah, não diga! De que?
- De abacaxi...
- Olha, comprei um abacaxi hoje! Vou fazer!
Isso foi à noite. No dia seguinte, logo cedo, fui lá e o sagu estava pronto, uma delícia!!!
Aí em outro episódio comentei com seu pai que estava com vontade de comer jabuticaba no pé. Ele disse na hora pra eu ligar pro seu avô e acabei não ligando... mas ontem ele veio aqui em casa e seu pai lembrou da história:
- Cassiano, sua filha tá com vontade de comer jabuticaba!
- Ah, mas eu sei onde tem, comi ontem! Vamos que eu te levo lá!
E lá fomos, na casa da Marisa e do Jonathas, amigos músicos que tem o privilégio de ter uma jabuticabeira no quintal!
Pelo jeito você já está se dando muito bem com esses avós, que atendem prontamente suas vontades ;)
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Agora lembrei de uma frase que seu vô falou lá de cima da jabuticabeira:
"Jabuticaba é que nem gente: pra estar boa tem que estar brilhando!"
Esse é o Cassiano...
sexta-feira, 17 de agosto de 2012
Os tempos modernos e a solidão da maternidade
Nem vou fazer o tão batido discurso de que as mulheres de hoje em
dia são sobrecarregadas com a obrigação de serem profissionais bem sucedidas,
de terem filhos adoráveis, um marido igualmente bem sucedido e adorável, uma
casa linda e uma imagem perfeita. Disso todo mundo já sabe. Mas a ficha que vem
me caindo lentamente é que, no meio desse furacão, nós mulheres, ao invés de
nos unirmos estamos ficando cada vez mais isoladas.
Com as famílias cada vez menores e mais separadas, parece que temos depositado todas as nossas esperanças - em vão -
nos maridos, cobrando deles atitudes e decisões que não lhes competem, o que só
faz por erodir a relação, complicando ainda mais o quadro, que no limite vai
resultar em realmente assumir tudo sozinha e, aí sim, ver o que é assumir tudo
sozinha.
E por falar em famílias menores e mais separadas, nossas mães, irmãs, tias, primas ou estão longe, ou não fazem as coisas como nós
gostaríamos que fizessem, ou tem seus mil e um afazeres dos quais ninguém
escapa nessa vida caótica.
E por falar em vida caótica, as amigas... elas que, ao contrário
da família, são nossas escolhas voluntárias, que compartilham afinidades, que
tem no sangue as dores e as delícias da nossa geração... me diga, quem pode,
realmente, contar com uma amiga? A empregada não veio, não tem com quem deixar
as crianças, alguém aciona uma amiga?! Menos grave: o casal quer, merece e precisa
de um fim de semana a dois, de namoro e sossego, dá pra deixar as crianças na
casa de alguma amiga?! Ou nem precisa de um apuro, mas o hábito cotidiano de
"dar uma passada", comer um bolo, falar da vida (ah, como é importante falar da vida!) enquanto a criançada
- das duas - coloca a sala de ponta cabeça.
Com certeza a vida em grandes cidades dificulta. Com um trânsito
paulistano à frente ninguém "dá uma passada" em lugar nenhum. Sem
falar das distâncias entre cidades, estados e países, que muitas vezes vão
separando as amigas, que cresceram juntas, estudaram juntas, se formaram juntas
(formar enquanto ser humano mesmo, não na faculdade... às vezes sim,
também...).
A estrutura de trabalho que ainda nos aprisiona também não ajuda
em nada. Se a empregada não veio e não tenho com quem deixar as crianças porque
preciso ir trabalhar, certamente minhas amigas – com ou sem crianças – também
precisam ir trabalhar!
Morar em cidades pequenas com as amigas por perto, ter horários e
responsabilidades de trabalho flexíveis... pode ser um sonho, pode ser
realidade, mas desconfio que não seria, por si só, a solução.
Tem um outro fator que parece determinante. Venha comigo, veja meu pensamento: a
revolução dos métodos anticoncepcionais transformou algo que antes era
inevitável, natural, líquido e certo - ter filhos - em uma questão de escolha,
opção. Dessa forma, se você tem filhos é porque você quis e se eu não tenho é justamente
porque eu não quis e não quero ter dor de cabeça com crianças. Se não
quis e não quero com os meus próprios, que dirá com os de terceiros! No máximo
um paparico pros sobrinhos, mas sem compromisso, devolvendo ao menor sinal de
turbulência.
Quanto às mulheres que optaram por ter filhos, parece que, ao
invés de ajudar aquelas que estão “iniciando na carreira”, assumem uma postura
de “ah, eu dei conta dos meus, eu consegui. Se vira, agora é a sua vez!”.
É uma visão pessimista, mau humorada, assumo. Mas foi um lampejo. Claro que não vamos generalizar... não é uma regra, não
existem regras, mas é possível que seja uma tendência.
Felizmente vejo grupos de mulheres se unindo e se ajudando, mas
ainda é no âmbito das minorias, daqueles pequenos grupos resistentes e muitas
vezes impertinentes, como os “ecológicos”, os vegetarianos, os místicos e
bichos-grilo em geral.
Nesse aspecto, morar em grandes cidades ajuda, pois é lá que as
coisas acontecem, é lá que surgem as novas
tendências e as vanguardas. Mas a que preço?
O que fazer então? Não sei... o pensamento ficou sem desfecho. Não
chega a ser uma tese, mas uma provocação.
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