domingo, 14 de abril de 2013

Música de boa noite


Estrela - Gilberto Gil


Há de surgir
Uma estrela no céu
Cada vez que você sorrir
Há de apagar
Uma estrela no céu
Cada vez que você chorar
O contrário também
Bem que pode acontecer
De uma estrela brilhar
Quando a lágrima cair
Ou então
De uma estrela cadente se jogar
Só pra ver
A flor do seu sorriso se abrir
Hum!
Deus fará
Absurdos
Contanto que a vida
Seja assim
Sim
Um altar
Onde a gente celebre
Tudo o que Ele consentir


quarta-feira, 10 de abril de 2013

Deixa chorar


A ideia de deixar um bebê chorando sempre me foi estranha. Depois de ler Laura Gutman, Carlos Gonzalez, Frédérick Leboyer, o Blog do Cacá e algumas outras coisas, vi que mais do que estranho, deixar um bebê chorando é uma grande violência. Agora, que tenho um bebê sob meus cuidados, isso é absolutamente impensável!

Só de imaginar um bebê chorando sozinho, eu choro. Gente, como pode uma mãe ficar indiferente ao choro do filho?! Ou, como pode uma mãe sofrer pelo choro do filho, mas mesmo assim deixá-lo chorar, porque alguém disse que "faz bem pros pulmões", ou que se pegar vai ficar mal acostumado?!

O livro Shantala, do Leboyer, que descreve uma técnica de massagem para bebês, começa com um texto lindíssimo sobre o nascimento. Ele indaga quando que a vida começa, se seria no nascimento, mas diz que a vida começa no útero. Então o que começaria com o nascimento? O medo. Ele fala também da fome, essa sensação inédita pro pequeno ser. Fome de leite e fome de contato.

Dentro, a fome
fora, o leite.
E, entre os dois,
a ausência,
a espera,
sofrimento indizível.
E que se chama
tempo.

(...)

É preciso alimentar os bebês.
Sem dúvida alguma.
Alimentar a sua pele tanto quanto o ventre.

(...)

Os bebês tem necessidade de leite.
Mas muito mais de ser amados
e receber carinho.

E tem ainda outra coisa, que me passou na cabeça nas longas horas de mamadas do Joaquim... se pra mim é difícil assimilar a nova fase, pra ele deve ser muito mais! Minha vida virou de ponta cabeça, mas eu vinha me preparando, eu tenho muito apoio, etc... e ele? Pra ele é TUDO novo e esse medo de que fala o Leboyer é muito real. Dá pra ver o medo nos olhinhos dele cada vez que o peito demora milésimo de segundo pra chegar na boca, cada vez que ele sente frio, ainda que eu saiba que também é por pouquíssimo tempo até fechar o macacão. Não dá pra fazer vista grossa a esse medo...

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Preceito Moderador

Foi logo nos primeiros dias com o Joaquim que eu lembrei daquele aviso de segurança que recebemos nos aviões: se precisar ajudar uma criança a colocar a máscara de oxigênio, primeiro coloque em você e depois na criança.

Ou seja, o bebê quer mamar e já começa a dar seus resmungos, mas preciso fazer xixi, por exemplo. Primeiro vou ao banheiro, mesmo que isso implique num pequeno choro, pois assim eu estarei mais confortável e poderei cuidar direito do bebê. Isso serve também pra quando estamos com fome, frio, enfim, condições básicas de conforto, que se não são satisfeitas não vão nos deixar totalmente entregues para o que o bebê precisa.

Isso geralmente nem vira um choro "de verdade" e faz toda a diferença.

E tem também as situações em que o choro "engrena", mas também por uma boa causa. Por exemplo: estou exausta, fiquei com o bebê o dia todo, ele não dorme e preciso desesperadamente de um banho (que representa também preciosos minutos de "retorno ao que eu era", de momentos "de mim comigo mesma"). Se tem alguém que possa ficar amorosamente com ele no colo (pai, avó...), mesmo que ele chore, corro pro banho e me dou esses instantes... saio revigorada e posso me dedicar a ele com muito mais leveza e entrega! Felizmente por aqui é raro lançar mão desse recurso, mas acho totalmente válido... vital, eu diria!

sábado, 6 de abril de 2013

Relato de puerpério - cap. I

O puerpério é esse tempo de pós-parto, com duração meio indefinida, mas podemos assumir a antiga "quarentena" ou "resguardo". É um período muito delicado, por motivos óbvios, tais como ter um bebê que depende exclusivamente e full-time de você, mas também por motivos menos conhecidos ou negligenciados.

O cérebro da puérpera - essa que vos fala, por exemplo - opera em outra frequência, em outro ritmo, COMPLETAMENTE diferente dos demais seres humanos. Perguntas, por exemplo, me atordoam. Hoje me dei conta de que o que eu mais tenho dito ultimamente é "não sei". O que vamos comer hoje? NÃO SEI. O que você quer comer hoje? NÃO SEI. Como você prefere tal coisa? NÃO SEI. Quantas vezes o Joaquim mamou hoje? NÃO SEI. Quanto ele dormiu da última vez? NÃO SEI. E as perguntas quantitativas são as piores! Que horas, quantas vezes, quanto, quanto, quanto??? NÃO SEI, NÃO SEI, NÃO SEI!!! E sabe do que mais?! Não QUERO saber!

E quando a gente sabe, mas não consegue formular uma resposta? Mutcho loco!

Isso acontece por causa dessa outra frequência e outro ritmo cerebrais, corporais, emocionais, espirituais, mas também por causa do cansaço.

E como cansa, minha Nossa Senhora do Bom Puerpério! (interessante como o parto é cercado de cuidados, métodos, relatos, Nossas Senhoras e Boas Horas e acaba tudo que nem nos contos de fada: a princesa e o príncipe se casam e simplesmente "viveram felizes para sempre"! É aí que a vida começa, meus caros, e resumir a vida em "felizes para sempre" é a maior sacanagem... bom, com a chegada de um filho é mais ou menos assim e eu sabia. Não posso dizer que ninguém me avisou, mas teoria é uma coisa e prática é outra).

Enfim, cansa demais e isso também traz confusão mental, dor nas costas e aquela sensação de peso sobre os ombros, como se o mundo inteiro estivesse lá, tipo o Atlas, da mitologia grega, sabe?

E cansada tudo adquire proporções desproporcionais. Uma coisinha vira uma coisona em fração de segundo. O caldo entorna mesmo e pra voltar a uma situação um pouquinho mais digna precisa de muita paciência de quem está em volta.

Eu acho que o que mais cansa é a disponibilidade, é não ter tempo e espaço para exercitar os quereres, que nessa confusão podem ser tão simples como passar um creme no rosto ou escrever no blog. E é instantâneo como o bebê capta e reflete esse estado. Eu fico irritada, ele se irrita, não dorme, eu fico mais cansada, me irrito mais e ele além de não dormir, chora, aí eu choro também e esse choro é o pedido de ajuda que não tinha conseguido sair em forma de palavras, que nem o bebê. Mas é um mecanismo eficiente, porque palavras podem ser ignoradas, mas ignorar um choro, de recém-nascido ou de recém-parida, não é coisa que se faça.

Nessas horas a gente precisa de apoio. Sem perguntas, por favor. Sem foco no bebê, pelamordedeus, deixa ele quietinho no meu colo. Ou então espere a pobre puérpera dizer: você pode ficar com ele um pouquinho enquanto eu tomo banho?

A mãe cuida full-time do bebê. Cuida, cuida, cuida. Amamenta, troca, dá banho, faz carinho, diz palavras doces, cuida, cuida, cuida. TODA a atenção, TODA a energia está voltada pro bebê, mas ela também precisa de cuidados e alguém tem que se encarregar disso. É controverso, mas a mãe que cuida não pode se cuidar. Não cabe.

E por enquanto tá bom desse capítulo, que o Joaquim acordou :)

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Algumas pessoas me falam que não conseguem deixar comentários aqui no blog e acho isso uma pena, porque os comentários enriquecem muito! Quando você não conseguir, me mande um e-mail ou mensagem no Facebook que eu ajudo :)

Segue uma mensagem que recebi da Cibele, que foi minha companheira de trabalho de campo no mestrado e atualmente é mãe do Dante e professora universitária. Acho importante publicar, pra quem estiver passando por isso não achar que ficou louca (ou achar que ficou sim, mas que é normal - por mais paradoxal que isso possa parecer, rs...).

Carol, como eu me assustei com a chegada de Dante! Justamente por essas razões q vc descreveu tão bem... Desde sempre eu quis ser mãe, acompanhei o nascimento e os primeiros meses de 3 sobrinhos, e além disso sempre fui pé-de-boi pra trabalhar. Por essas razões, acreditava (pobrezita de mim) que tiraria de letra os cuidados com o Dante. Menina, na hora q eu cheguei em casa e me dei conta do q era REALEMNTE cuidar de um filho, me desesperei. Não conseguia dormir de tanta ansiedade por acreditar (piamente) q não daria conta. Várias vezes eu esquecia de almoçar, de escovar o dente, de pentear o cabelo. Fui no psiquiatra: 'doutor, acho q estou com depressão pós-parto...' e contei tudo. Ele sorriu docemente e me deu a resposta que eu menos esperava "Vc está ótima! É assim mesmo" rsrsrs Com o tempo, Carol, tudo se ajeita. Ignore solenemente os chatos de plantão q, ao invés de ajudar, dizem que 'depois piora, com o tempo fica mais complicado'. É mentira!!! Cada dia fica melhor, pois o tempo aumenta a sintonia entre mãe-filho-pai, além de vc simplesmente ir se acostumando com o rojão. Como dizia minha psicanalista, a mãe empresta, mesmo, a vida dela ao bebê, por um tempo. Depois vc vai conseguir retomar, aos poucos, sua vida, acredite. Beijo grande, boa sorte com seu pequeno. Cibele.

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Música de bom dia



Estrada do Sol - Tom Jobim

É de manhã, vem o sol
Mas os pingos da chuva que ontem caiu
Ainda estão a brilhar
Ainda estão a dançar
Ao vento alegre que me traz esta canção

Quero que você me dê a mão
Vamos sair por aí sem pensar
No que foi que sonhei
Que chorei, que sofri
Pois a nossa manhã
Já me fez esquecer
Me dê a mão vamos sair
Pra ver o sol

domingo, 31 de março de 2013

Sobre nascimentos e besouros



Joaquim, foi logo no começo da sua vida dentro do útero que seu pai apareceu em casa com um besouro. Um besouro diferente, grande, bonitão - esse aí da foto. Ele falou que ia guardar pra você e assim começou uma coleção, pois os bichinhos foram aparecendo e estão todos numa caixinha que um dia você vai ganhar (e que até lá pode se transformar numa caixona, pois a coleção não para de crescer!).

Eu também me animei com a coleção e estou sempre de olho, porque aqui em casa tem muito bichinho. Só que uma regra é que só entra o bichinho que a gente encontrar morto, pois é claro que não vamos sair por aí matando besouros por capricho. Uma vida é sempre uma vida, não importa o tamanho.

E começando a prestar mais atenção nos besouros, acabava encontrando muitos virados de barriguinha pra cima, sem conseguir se virar de volta. Aquela situação me dava a maior pena e eu virava ele, mas sem me conformar com essa "falha de projeto" da natureza! Como pode um bicho ficar numa posição da qual ele não consegue sair!? Se não aparecer ninguém pra ajudar, ele morre. E tanto morre que estamos fazendo uma coleção!

E foi essa coleção, filho, que me ajudou a entender o nosso nascimento. Nós somos dois besourinhos :)

No dia que você escolheu pra nascer nós ficamos um bom tempo que nem os besouros, virados de barriguinha pra cima e sem conseguir sair do lugar. Mas felizmente alguém passou por ali, viu nossa aflição e nos deu um peteleco!

Levar um peteleco não é lá a coisa mais legal do mundo, mas depois que passa o susto e a gente vê que pode andar de novo, que acabou aquela agonia, aí é um grande alívio e uma grande felicidade. E a felicidade de olhar pro lado e ver que você está andando junto comigo, ah, essa realmente não tem tamanho!

Hoje eu entendo que essa "incapacidade" dos besouros não é uma falha de projeto, mas uma evidência de que estamos todos interligados; um lembrete de que não podemos fazer tudo sozinhos; um aviso de que é preciso saber pedir - e aceitar - ajuda; e aprender essa lição pode significar a diferença entre a vida e a morte.

Então, Joaquim, o que eu desejo é que sempre que você estiver numa situação difícil, aparentemente sem solução, sem conseguir enxergar o horizonte, que nesse momento uma alma solidária apareça e mude sua posição. Assim, sem perguntas, sem “mas” nem “por que”. E você, filho, saia então seguindo seu caminho, também sem perguntas, sem “mas” nem “por que”, simplesmente porque essa é a teia da vida.


Escrever sobre uma cesariana não é tarefa fácil quando se quer contar uma história bonita. Não há romantismo, o cenário é frio e não tem muito o que “inventar” pra fugir disso. Mas nos primeiros instantes em que fiquei a sós com o Joaquim, enquanto me recuperava da anestesia, eu prometi pra ele que iria escrever uma história bonita pra contar seu nascimento. Porque ele merece ter uma história bonita!

quinta-feira, 21 de março de 2013

Notícias do Joaquim



Joaquim nasceu no dia 18 de março de 2013, uma segunda-feira, no último dia da lua nova e um dia antes de completar 40 semanas de gestação. Ele chegou às 19h20, através de uma cirurgia cesariana. Antes que perguntem, digo que ainda não estou pronta pra falar sobre isso, pois meu grande sonho era ter um parto natural. De qualquer forma, a única coisa que importa agora é que ele está bem e está comigo desde o instante em que nasceu. Então vamos falar sobre o que importa!

Meu menino nasceu bem, ganhando notas máximas em todas as avaliações, pesando 3.760g e medindo 52cm. Sua primeira sugada já foi perfeita, forte, abocanhando todo o mamilo, fazendo aquele vácuo e mostrando a que veio! O principal ele já nasceu sabendo e os detalhes estamos aprendendo juntos e com a ajuda das nossas fadas.

E por falar em fadas, Joaquim chegou cercado de mulheres! A equipe inicial já era estritamente feminina (obstetra, parteira, doula e neonatologista – ainda vou falar sobre elas, mas agora nosso pequeno sol ofusca qualquer estrela...) e a equipe que se agregou depois continuou assim (anestesista, médica auxiliar e enfermeiras). Até as responsáveis pela certidão de nascimento dele são mulheres! Claro que nada disso foi premeditado e não tenho nada contra a presença masculina, só achei curioso.

Mas voltemos ao que importa. A primeira noite de vida fora do útero o Joaquim passou no meu colo. A noite toda! Virando de um lado pro outro pra alternar as mamadas, dando um chorinho de vez em quando, só até acertar o alvo e ajeitar a boca no peito. Dormimos juntos e sim, eu consegui dormir. Foi a coisa mais deliciosa do mundo ficar assim tão juntinho. E é engraçado pensar que agora que ele está do lado de fora eu me sinto mais junto dele...

De manhã ele tomou um banho de gato, uma coisa assim bem meia boca, mas eu expliquei pra ele que o banho de verdade seria em casa. Eu também tomei banho, escovei os dentes e comi numa boa, pois o papai leva muito jeito e os dois se entendem perfeitamente!

As primeiras visitas foram das vovós, vovôs, tios, tia Carol e da priminha Clara, que veio toda quietinha dar as boas vindas pro novo companheiro.

Felizmente foram só duas noites no hospital (as duas no meu colo, ai que delícia!) e ontem já viemos pra casa. Essa primeira noite na nossa toca também foi tranqüila, sem choro e com muita mamada.

Agora sim tivemos nosso primeiro banho e, mesmo com toda a inexperiência dos pais, foi aprovado. Aliás, cada vez mais eu tenho certeza de que o Joaquim escolheu nossa família a dedo e com muita consciência. Enquanto a gente troca, ele fica olhando, como quem pensa “ok, eu sei que vocês não tem prática, mas fiquem tranquilos, eu tenho paciência!”.

domingo, 10 de março de 2013

A mãe recém-nascida

A mãe recém-nascida é tão frágil, indefesa, inexperiente e necessitada de cuidados quanto o bebê que a fez nascer. Só que infelizmente poucos se dão conta disso... e, mais infelizmente ainda, entre esses poucos nem sempre está a própria mãe, pois é comum que ela não tenha consciência desse seu estado.

E isso não tem a ver com o fato de ser uma mãe "totalmente nova" ou já com certa experiência. A mãe que nasce é a mãe daquele bebê e, por mais que ela tenha outros filhos, será sempre uma nova mãe. Como diz a Vilma, "de dentro pra fora é sempre a primeira vez". Pode ser, é claro, que a mãe recém-nascida tenha ajuda da mãe um pouco mais vivida que a habita, mas isso geralmente vai se restringir a uma maior desenvoltura com fraldas, roupinhas e malas... desafios novos sempre haverão e nos âmbitos mais sutis.

Vejamos então como é essa dupla - mãe e bebê recém-nascidos. Frágil, indefesa, inexperiente, mas não 100%, afinal, a natureza cuida de nós e quer que sobrevivamos. Um bebê é frágil, mas ao mesmo tempo pode ser extremamente forte em seu instinto de sobrevivência, por mais que isso lhe custe sequelas... enfim, sabemos de bebês que sobrevivem às condições mais adversas e, segundo a Laura Gutman, todos nós somos, em última análise, sobreviventes. Assim são também as mães recém-nascidas. Elas podem ser muito frágeis, mas também são dotadas de uma força que as impulsiona.

Seguindo esse raciocínio eu diria que um bebê é semi-indefeso, porque por mais que ele não possa sequer virar de lado, quanto mais "sair correndo", ele tem seu choro, que é seu grande trunfo, sua única defesa, seu único modo de expressar incômodo, insatisfação, medo, fome, dor, tristeza, angústia. Fica ao observador o desafio de decodificar esse choro para poder tomar a medida necessária ao seu alento. E a mãe recém-nascida, qual é seu grande trunfo? O que a torna "semi-indefesa"? Seu instinto. Igualmente misterioso e de difícil tradução, mas igualmente vital. E, da mesma forma que o choro, igualmente trágico quando ignorado.

A inexperiência é a questão mais fácil de resolver, desde que se tenha paciência e consciência de que os grandes monstros do começo viram carneirinhos depois de um tempo. Não pelo tempo, mas pela persistência, pela observação, pela repetição, pela vontade de melhorar e tornas as coisas mais fáceis.


E os cuidados? Se as características anteriores tinham cada uma um componente que as amenizasse, não se pode dizer o mesmo quanto aos cuidados. Um bebê recém-nascido precisa de cuidados 100% do tempo e assim é também com a mãe recém-nascida. E de que cuidados ela precisa?

Em primeiro lugar, ela precisa de espaço para aprender a ser mãe. Ela precisa estar focada em sua nova tarefa e pra isso quanto menos demanda que não tenha a ver com isso, melhor. Trabalho e tarefas domésticas, principalmente. Winnicott fala que "um bebê não existe sozinho; ele existe com sua mãe". Eu, modestamente, iria um passo além: "uma mãe não existe sozinha; ela existe com sua comunidade".

Se a mãe recém-nascida precisa de espaço para aprender a ser mãe e para cuidar de fato de seu bebê, alguém precisa cuidar de todos os "detalhes cotidianos", tais como onde ela vai morar (paga-se um aluguel? quem paga?), o que ela vai comer (quem sai para comprar? quem paga? quem prepara?), quem limpa a casa, quem lava as roupas, quem se encarrega dos outros filhos, quem se encarrega dos bichos de estimação, quem cuida das plantas. Não digo que não seja possível a uma mãe recém-nascida sobreviver sem que alguém se encarregue de todas essas coisas, mas qualquer falha seria não ter cuidados 100% do tempo, o que traz sequelas proporcionais às lacunas (pense no que pode acontecer com um bebê que não tem cuidados 100% do tempo...).

Então ok, imaginemos que a comunidade (marido, mãe, sogra, irmãs, cunhadas, amigas, empregados e empregadores), dê conta dos detalhes cotidianos, isso basta? Não, não basta. Na verdade, o espaço mais importante que a mãe recém-nascida precisa é o espaço de deixar com que seus instintos se manifestem. De nada adianta não ter afazeres domésticos, se o espaço é preenchido por palpites, "orientações", julgamentos e críticas. Quem sabe do bebê é a mãe e ela saberá quando e onde pedir ajuda. E se você for o depositário dessa confiança, se a mãe te procurar para pedir ajuda, esteja atento, ouça e procure ser o mais objetivo possível na ajuda oferecida, ou seja, ajude no que for pedido e não que você acha que deveria fazer. Se não estiver apto a dar a ajuda pedida, diga. Ajudar a encontrar ajuda também é uma grande ajuda!

Mais uma vez a Laura: uma mãe saudável tem total capacidade de cuidar de seu filho. Por mais cansada que esteja, ela pode nutrir, trocar fraldas, dar banho, vestir, ninar. Se você quer ajudar uma mãe, principalmente a mãe recém-nascida, não se ofereça para dar banho no bebê; ofereça-se para lavar a louça.

E se a mãe não for/não estiver saudável? Aí sim é necessária alguma intervenção, mas não é cuidando do bebê que você vai resolver... é cuidando da mãe...


Esse texto foi inspirado em um outro, publicado no Blog Minha Mãe Que Disse: "Quando nasce um bebê, nasce uma mãe. Será?", de autoria da Shirley Hilgert, que também escreve no Macetes de Mãe. Portanto o "mote" foi dela, mas me deu vontade de aprofundar o tema com base nas leituras que venho tendo. Ainda não posso dar o "meu testemunho", mas isso pouco importa ;)