segunda-feira, 7 de agosto de 2017

A culpa não é minha!

Basta ler um pouquinho sobre como os seres humanos se desenvolvem que logo chegamos a uma conclusão muito simples e muito perturbadora: a culpa é sempre da mãe. Ok, dos pais, mas principalmente da mãe. Aquela coisa né, filho é espelho, filho é reflexo dos pais, filho é esponja... e por aí vai. Aceito essa ideia e me vejo constantemente refletida nessas duas coisicas fofas e lindas que tenho aqui em casa - principalmente quando eles não estão sendo fofos e lindos... intrigante.

Aí junte-se a isso toda aquela teoria de "aquilo que você vive é o que você atraiu pra sua vida" ou "a vida é feita de escolhas" ou "você colhe o que planta" e está feito o caldo da culpa, devidamente acompanhado por um auto bombardeio de porquês. Por que eu, por que comigo, por que assim, por que agora, por que de novo?!?!?!

Ai gente, que tortura! Mas sabe, hoje tive um momento de lucidez e consegui tirar dos meus ombros, por um instante precioso, todos os porquês e toda a culpa, de uma forma também bastante simples: shit happens - ou, merda acontece, em bom português. A vida não é pra ser uma monotonia cor de rosa, a vida pulsa! E nos momentos menos doces pode ser que - tchãrãããããm - não tenha havido absolutamente nada de errado com suas condutas pretéritas. Simplesmente, é a vida...

Nenê chora
Criança faz birra
Empregada falta
Pessoas - e animais, e plantas - adoecem
Pessoas - e animais, e plantas - morrem
Contas vencem
Comida acaba
Alguns amores acabam
O dia acaba, a noite acaba
O dia recomeça
Segundas-feiras existem
As coisas saem do lugar - OTEMPOTODO

e nada disso é culpa minha!!!

ok, quando os incômodos ficam exacerbados, muito frequentes, fora de eixo, aí sim a gente aplica essas teorias de atração e desatração... o que não dá é pra achar que qualquer gripe é castigo dos deuses ou que qualquer manha de criança é um erro abissal na educação.

Mães, repitam comigo:
CRIANÇA FAZ BIRRA. ponto. tá tudo bem.

Donas de casa, repitam comigo:
A CASA É UM SER VIVO. a casa se bagunça, a casa se suja, a casa se quebra. tem muita vida pra ser vivida antes de ficar maluca com a casa que nunca chega na perfeição - e nunca chegará!

Pessoas, repitam comigo:
É NORMAL FICAR DOENTE DE VEZ EM QUANDO. o corpo se regula, o corpo se limpa, o corpo se regenera. não é culpa do glúten, nem da lactose, nem do açúcar. pode ser que você jamais saiba o que de fato te fez mal. e pode ser que essa mesma coisa nunca mais venha a te causar desconfortos... mistérios da vida

e seguimos... cuidando do que precisa de cuidado aqui e agora e largando mão de todo o resto



domingo, 9 de julho de 2017

É só cansaço...

Um desânimo, uma falta de paciência, uma desesperança.

Uma falta de clareza, que resulta em atitudes equivocadas, que mais atrapalham do que ajudam.

O que está acontecendo?

Energias negativas, mau olhado, olho gordo, macumba

Ou será que estou deprimida? Pior: estou ficando louca?!

Nada disso. Cansaço. Simples assim.

Não vou te contar o que tem me deixado cansada. Porque não quero que meu cansaço seja colocado numa régua onde se mede e se legitima (ou não) todos os cansaços.

Cansaço é fisiológico e cada corpo tem sua fisiologia. Se digo que estou cansada é porque estou cansada, e pronto, isso basta. Não importa se corri uma maratona ou se dei uma volta no quarteirão caminhando. Não importa se você se cansa com uma maratona ou com uma volta no quarteirão caminhando.

Ah como as comparações e competições fazem mal pra gente... não tem como comparar coisas diferentes, não tem como igualar seres vivos, tão únicos em suas constituições! [acho que não tem como comparar nem rochas, seres "inanimados", e também únicos em suas constituições...].

Enfim, justifico assim meu cansaço. Dizendo que estou cansada.

Eu não preciso de ajuda espiritual; eu não preciso de feng shui; eu não preciso de terapia; eu não preciso de remédio.

Eu preciso dormir uma noite toda, eu preciso acordar com silêncio e tempo pra tomar um looooooongo café da manhã, eu preciso de sossego pra ler um livro e olhar a paisagem sem que ninguém me peça NADA. Eu preciso decidir - por mim - se fico em casa ou se saio, eu preciso escolher - por mim - minhas companhias ou se fico só. E não precisa ser tudo isso de uma vez, nem ser assim todo dia. É só cansaço! Eu não quero "mudar de vida". Eu só quero descansar. Um pouco. De vez em quando. E isso que listei aqui são apenas exemplos do que é descanso pra mim. Repito: pra mim. Repito: exemplos.

E repito tudo isso pra mim mesma, porque se tem alguém que compara cansaços, sou eu. Se tem alguém que legitima - ou não - o próprio cansaço, sou eu. E se tem alguém que acha que pra "resolver" a coisa precisa de atitudes radicais, também sou eu.

Mas estou aprendendo. Aprendendo a identificar quando é só cansaço e quando é outra coisa [e o que seria essa "outra coisa"? Pensando na minha vida identifico apenas duas situações: cansaço e tédio. Quando estou em desequilíbrio é ou porque me excedi, ou porque preciso de estímulos... enfim, outro assunto]. Estou aprendendo também a buscar descansos. Pontuais, possíveis, reais. Sentar pra escrever esse texto é um deles...

Agora que descansei - um pouco - vou lá colocar a roupa pra lavar! Ou não... ops, o nenê acordou!


domingo, 2 de abril de 2017

As necessidades de um bebê

Um bebê precisa de sossego.

Sossego é silêncio. O silêncio natural da casa, com seus ruídos costumeiros. Sossego é tempo. O tempo que levam suas experimentações. Respeitar esse tempo é deixar que a experimentação acabe em seu ciclo normal e é também não querer prolongá-la quando já não faz mais sentido.

Mas não pense que sossego seja isolamento! Sossego é também ter a segurança de que alguém está ali para o amparar. Sossego é saber que, por mais que seu corpinho em desenvolvimento não possa se locomover independentemente, há ali um corpo adulto que lhe empresta sua mobilidade.

Sossego também não é ausência de interação! Sossego é contar com o conforto de um corpo adulto que o embale, que o aqueça, que o faça sentir a pulsação da vida em pulmões e coração, como que dizendo "olha, é assim que se vive". Sossego é ter seus resmungos atendidos e seus sorrisos e olhares retribuídos.

Um bebê não precisa de estímulo. O mundo e seu próprio corpo já são estímulos suficientes! E extremamente cansativos... se você quiser proporcionar algo a um bebê, proporcione sossego.

Esse sossego atento, presente, prestativo, amoroso, humano.

quinta-feira, 2 de março de 2017

Fenômenos da maternagem

Esses dias comentei com duas amigas, mães amamentantes, como eu sinto um prazer quando o Jorge mama (!). Uma delas, também amamentando seu segundo filho, disse que também sente, e descreveu como uma euforia.

Com o Joaquim eu não senti assim. Era gostoso, era um momento de aconchego, era gratificante, mas fisicamente eu sentia uma leve dor do leite descendo. Nada muito forte, mas acho que essa dorzinha não deixava vir o prazer. Minha doula explicou que amamentar o segundo é mais tranquilo, porque os dutos já estão "amaciados" e aí dói menos, ou não dói. E acho que é exatamente isso que tá acontecendo comigo! Eu sinto o leite descendo, mas não dói. E aí vem um prazer físico mesmo, uma coisa muito doida. Na maioria das vezes é o mesmo prazer que tenho quando como um doce BEM gostoso. Sério!

Mas hoje aconteceu algo extraordinário! Um dia normal em casa, Jorge começa a mamar e sou surpreendida por uma sensação muito clara de algo que é uma das coisas que mais gosto na vida: secar ao sol depois de um banho de cachoeira. Sim, isso mesmo! O corpo formigando pela água fria, mas já se aquecendo com o sol e com o calor da pedra, e tudo isso amplificado pelo estado de êxtase de estar diante de uma queda d´água cristalina, num lugar semi deserto, com um céu azul brilhante enfeitado com poucas e pequenas nuvens. Fui lá pro rio Macaquinho, revivendo um dos melhores banhos de cachoeira que já tomei na vida!

Em fração de segundo. Fui e voltei. Voltei tão renovada quanto se tivesse de fato tomado o banho.

E ele lá mamando, sem saber de nada... ou sabendo de tudo! Claro que sim, sabendo de tudo!


sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

vai passar...

Vai passar. Esse tem sido meu mantra desde as primeiras semanas de gravidez, quando comecei a passar mal. Vai passar.

E lá se foram 6 meses de enjoos mais 4 meses de azia! Sim, porque a gravidez durou 10 meses! E no final, aquele desconforto pra dormir, aquele peso, aquele cansaço e eu no meu mantra: vai passar.

E lá se foram 42 semanas de gestação!

Até que finalmente, quando eu já estava lançando mão de métodos caseiros de indução e considerando seriamente algo mais invasivo, começam as contrações. E logo ficam fortes. E dolorosas. E eu no meu mantra: vai passar.

E lá se foram 36 horas (!!!) de trabalho de parto. Com MUITA dor. Até que foi constatada uma DCP e partimos pra cesariana. Continuei no meu mantra: vai passar.

E lá se foi uma cirurgia demorada e complicada. E com isso precisei ficar um dia a mais no hospital, a médica queria que eu ficasse ainda outro, mas escolhi voltar pra casa e assim fui. Fraca, com anemia, com sonda, tomando injeção de antibiótico duas vezes por dia e continuando com o mantra: vai passar.

E de fato passou. No dia que tirei a sonda e os pontos - uma semana após a cirurgia - senti que renasci. Ainda fraca pela anemia, mas renascida.

Pois logo em seguida, TRÊS DIAS pra ser exata, fizemos nossa mudança. Pra casa nova, uma alegria, mas uma baita de uma mudança! Eu, claro, não carreguei um copo. Fisicamente a mudança não me exigiu em nada, mas tem todo um abalo né, as coisas ainda meio sem lugar... a personificação exata do meu estado emocional: tentando juntar os caquinhos e avaliando se vale a pena colar - como se tivesse escolha. Dessa vez com menos otimismo, mas ainda insistindo no mantra: vai passar. (menos otimismo porque a impressão é que as coisas NUNCA iriam se ajeitar, ao contrário das situações anteriores, onde dava pra vislumbrar algum prazo, por maior que fosse, por maiores que tenham sido).

E o nenê?! Claro, o nenê! Nasceu ótimo, passou as primeiras semanas sossegado como um anjinho, dormindo longas horas. Certamente ele sabia exatamente onde estava se metendo... mas assim que a poeira ameaçou baixar, Jorge ficou inquieto. Devem ser as tais das cólicas, que não tivemos com o Joaquim.

Então me vi com um nenê chorão, que não sossegava mamando, e tremi. Num ato reflexo, automático, ameacei pensar "vai passar". Mas trago comigo uma centelha de lucidez que gritou "OPA! Peraí! Vai passar O QUÊ?! Vai passar a sua vida. Vai passar a vida do seu filho!".

E aí me dei conta da grande armadilha desse mantra... porque o que passa é a vida, quer passemos por ela ou não.



PS - ainda não consegui escrever sobre o Jorge. Ele é tão lindo! Mas tenho que digerir algumas coisas sobre mim antes de chegar nele...






quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

As relações trabalhistas e nossos resquícios escravocratas

Ontem fui ao clube e me informei sobre o procedimento pra cadastrar um acompanhante pra entrar com meu filho. Joaquim tem três anos, está prestes a ganhar um irmão, o verão está aí e preciso contar com pessoas pra levá-lo passear no clube, coisa que ele adora fazer.

Quando li o formulário e as regras, tudo dentro do previsto, mas confesso que gostaria de ter me espantado. Digo isso porque eu já esperava me deparar com alguns absurdos, mas isso não me isenta de um grande incômodo, uma certa indignação e a vontade de sair por aí perguntando pras pessoas "por quê?!?!?".


Ok, apresentar RG, básico. Agora, não utilizar piscina? Não tomar sol? Não utilizar traje de banho? Por que, por que, por quêêêêêê?!?!?! Essa pessoa vai levar meu filho ao clube principalmente pra brincar na piscina. Ela precisa utilizar a piscina. Não pra ficar lá folgadona enquanto eu pago o salário dela, mas porque ela está cuidando e fazendo companhia pra essa criança, precisa interagir, precisa entrar na água, enfim, precisa de liberdade de movimento, precisa se sentir à vontade pra desempenhar o papel de cuidadora. E nesse caso, o melhor é que esteja em traje de banho, como uma pessoa normal. E por que não poderia tomar sol? Qual o problema?!?!

Sério, gente, quero ver quem tem coragem de dizer o que eu acho que pensam quando fazem ou fazem cumprir regras desse tipo.

Eu me sentiria envergonhada, constrangida, se tivesse que orientar a babá a cumprir essas regras. Minha vontade é de orientar explicitamente a não cumprir, agindo de forma natural, fazendo o que precisar fazer para desempenhar bem sua função. Mas e aí, se vem aquele funcionário, todo cheio de razões, chamar a atenção da pessoa? Eu posso até ser a responsável e receber as penalidades, mas ali, na hora, quem vai passar o constrangimento de "ser colocada no seu devido lugar" é ela. Tenho o direito de expô-la a isso? Acho que é algo a se conversar de antemão, alertando-a do que pode acontecer e dizendo que temos sim o direito de questionar as regras e o dever de não ficarmos caladas diante do que achamos injusto ou sem sentido. Numa boa, sem briga e estando disposta a arcar com as consequências, sem que isso a humilhe, mas pelo contrário, estando segura de sua integridade ao não se deixar ser humilhada por regras escravocratas.

Poderíamos ir mais fundo e questionar a própria existência de um clube privado; poderíamos também nos resignar às regras, numa coisa de "se quer ser sócio é assim que funciona". Mas não. Meu instinto provocador não consegue se conformar a tal ponto. Posso até vir a deixar de frequentar o clube, mas não sem antes cutucar preconceitos, questionar regras antiquadas e usar a oportunidade para  repensar nossos valores, nossas atitudes. Ainda mais quando se trata dos exemplos que estamos dando às crianças.

Fico no aguardo de um BOM argumento que sustente essas regras. E enquanto ele não chegar, não as cumprirei. E também não vou abandonar a causa facilmente. Não vou me conformar que "ah, clube é assim mesmo, antro da burguesia"; Não, pessoal, eu devo isso a meus filhos. Não vou engolir esse pacote de preconceito e desrespeito.


terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Trilogia das águas

Você que me lê sabe que eu gosto de planejar as coisas. Pra mim é uma forma de fazer a experiência "render", já vivenciando antes algumas sensações, mergulhando devagar naquilo que está por vir. Mas tenho aprendido a me libertar dos planejamentos e tem sido fascinante viver o inesperado, reconhecer os planos ocultos e me entregar ao correr das águas.

Pois sim, as águas.

Nessa gestação do Jorge tive três encontros muito significativos com as águas. E foi no último que me dei conta dessa trilogia, ou seja, não foi planejada. Aconteceu. E uma das coisas lindas de quando as coisas acontecem naturalmente é que quando elas se revelam a gente solta aquele "ooohhhh" de admiração, espanto, maravilhamento.

O primeiro episódio eu já contei aqui. Foi um banho de cachoeira pra lá de especial, cheio de ritos de conexão com a natureza e com o feminino. Foi algo que eu desejei, que se mostrou e que eu agarrei. Porque a diferença entre planejar e deixar rolar, pra mim, é mais por aí. O deixar rolar não é algo solto, desconexo. Deixar rolar é enviar intenções e estar atento aos desenrolares, fluindo junto, agindo junto. Planejar estaria mais para algo que sentenciamos e "forçamos" a acontecer... por isso tem um alto risco de acabar em frustração. Afinal, por mais força que tenhamos, não somos mais fortes que o fluxo da Vida; não temos como saber de antemão os meandros por onde ele vai nos levar...


O segundo episódio da trilogia veio no embalo do primeiro. Foi um banho Hammam, o tradicional banho turco, que é composto por banho de vapor (ou sauna úmida cá pra nós, mas que eu não fiz porque não é indicado na gestação), banho de imersão (ah, nesse eu me esbaldei! Fiquei lá de moooooolho, sentindo a leveza da barriga boiando) e banho de espuma, que é aplicado por uma terapeuta e inclui uma esfoliação, a espuma e uma massagem. Coisa dos deuses! Digo que veio no embalo do primeiro porque antes do banho de cachoeira, minha intenção era fazer um Hammam, aí surgiu a cachoeira e ela me levou, mas quando contei a história, a minha amiga Marina, que tem o único SPA no Brasil que oferece banho Hammam, o Azahar SPA, me presenteou com esse banho! Mais do que isso: presenteou a mim e ao PC (marido) com o banho e com a companhia dela e do marido. Coisa linda demais passar uma tarde com esses amigos queridos, em puro deleite, cuidado e alegria! O coração transborda de gratidão e merecimento...





E o terceiro episódio foi uma sessão de Watsu! Quem me recomendou e colocou em contato com a terapeuta foi minha doula. Eu nunca tinha feito e nem sabia como era, mas fui porque sabia que era bom, rs... e como foi! A sessão dura uma hora, numa piscina quentinha, de olhos fechados, sem tocar os pés no chão, como o corpo completamente entregue aos braços da terapeuta. Se quiser saber mais, faça! Nem sei "pra que que serve", só sei que é uma sensação maravilhosa de entrega, leveza e de estar sendo cuidada e amparada.

(essa imagem é do Google, rs... só pra ilustrar)

E agora no final, quando a trilogia se apresentou, percebi que uma mãe terra gestando um filho fogo precisaria mesmo do amparo das águas... fazer-me barro para então deixar-me queimar, na eterna transmutação alquímica da Vida.