quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Rebento

Rebento
substantivo abstrato
O ato, a criação, o seu momento
Como uma estrela nova e o seu barato
que só Deus sabe, lá no firmamento
Rebento
Tudo o que nasce é Rebento
Tudo que brota, que vinga, que medra
Rebento raro como flor na terra,
rebento farto como trigo ao vento
Outras vezes rebento simplesmente
no presente do indicativo
Como as correntes de um cão furioso,
ou as mãos de um lavrador ativo
às vezes mesmo perigosamente
como acidente em forno radioativo
Às vezes, só porque fico nervoso, rebento
às vezes, somente porque estou vivo!
Rebento, a reação imediata
a cada sensação de abatimento
Rebento, o coração dizendo: Bata!
a cada bofetão do sofrimento
Rebento, esse trovão dentro da mata
e a imensidão do som nesse momento


Pode ser na voz do Gil, lindo e luminoso, ou na voz da Elis, naquele disco gravado em Montreaux, poderosa e arrebatadora!

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

O preço de um filho

Quanto custa um filho? Em valores monetários mesmo, não estou me referindo aos lucros e dividendos metafísicos da empreitada.

Pois eu tenho visto por aí que as pessoas do meu convívio socioeconômico - a tal da classe média?! - acham que um filho custa muito caro... tenho a impressão que não tão caros a ponto de abrir mão, mas caros o suficiente para "se contentar com um".

Não quero fazer apologia à explosão demográfica, mas algumas posturas de pais de filhos únicos tem me assustado um pouco. O argumento de que não dá pra ter outro filho porque "filho é muito caro" me entristece profundamente. Quando dizem então que preferem ter apenas um filho, mas dar-lhe tudo do bom e do melhor, ao invés de ter mais e fazer malabarismos, fico ainda mais chateada... será que essas pessoas - que invariavelmente tem irmãos - passaram por tantas privações assim? Será que cresceram pensando "se não tivesse que dividir os presentes com meu irmão já poderia ter uma bicicleta só pra mim"? Ou ainda: "se meus pais não tivessem que pagar duas mensalidades na escola eu teria estudado numa escola melhor e hoje seria `alguém na vida´"?

Bem, se passaram por esse tipo de questionamento, angústia e aflição, desculpem-me, mas o que precisam é de um terapeuta e não da fórmula de que "um filho eu posso bancar, mas dois não".

E se não passaram, por que se preocupar? Falo agora a esses, pois com os do primeiro grupo não tenho formação suficiente para dialogar.

Qual a importância que seus irmãos tiveram, tem e com certeza terão em sua vida? Quantos brinquedos uma simples companhia de irmão economiza? Desde quando "escola boa" é garantia de alguma coisa?

Sei que os tempos são outros e que as escolas públicas - onde muitos de nós estudamos - parecem não ser mais uma opção viável, mas é isso, hoje, que vai fazer com que você prive seu filho da melhor companhia que ele possa vir a ter? Como quantificar o valor da cumplicidade, do apoio e da identificação entre irmãos?!

Se você não quer ou não pode ter mais filhos, tudo bem, é seu direito, mas dizer que filho custa caro e por isso só terá um, pra mim chega a ser pecado. E claro que não estamos falando de pessoas miseráveis... estamos falando de pessoas que tem dois carros na garagem - muitas vezes própria, que tem o celular do ano, que tem uma TV que ocupa 70% da parede da sala, que fazem viagens internacionais, que usam roupas de grife, que conhecem bons restaurantes.

Assim pode ser que criar um filho seja realmente caro, passando pra ele desde cedo padrões alucinados de consumo, que muitas vezes são confundidos e justificados como sendo "conforto e segurança". Báh! Se tem coisa que o dinheiro não compra é conforto e segurança! Você pode ter a melhor casa, com os móveis mais aconchegantes, mas se estiver triste, se não tiver companhia, se não tiver amor, isso não vai adiantar NADA. Quanto à segurança, nem contra a violência, nem um seguro-saúde, nem as melhores escolas, nada disso é resolvido com dinheiro quando a coisa resolve entornar de fato.

E o que evita que as coisas entornem? Adivinha? Amor, companhia, apoio de pessoas queridas, cumplicidade, uma estrutura familiar feliz e bem resolvida. E hoje em dia, caro leitor, isso sim que é luxo... esse amor e essa estrutura familiar feliz e bem resolvida (veja bem, nem estou falando que os pais tem que ser casados e viver juntos... pode estar cada um na sua, com novos companheiros, novos filhos, mas de forma saudável, amigável, terna, enfim, bem resolvida!). E é esse legado, essa base, que é algo realmente valioso para construir para os filhos. Não tem nada a ver com aula de inglês, natação e Kumon, badulaques, penduricalhos, jogos eletrônicos e outros artefatos que só servem pra gastar energia e poluir o planeta.

Não sei quantos filhos terei, não sei quanto custa um filho, mas não são os valores monetários que me guiarão, assim como não são eles que me guiam em âmbitos muito menos nobres da minha vida.



segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Ai filhote, e eu que tinha achado que já estávamos perfeitamente adaptados um ao outro e que os desconfortos gestacionais haviam passado... pura ilusão...

Tivemos sim uns dias, umas duas ou três semanas de "trégua", mas de uns dias pra cá parece que começou tudo de novo... toda aquela indisposição, enjoos, digestão ruim... fora ficar cuspindo que nem uma lhama!

Eu pensei que escaparia disso, pois minha mãe não foi lá das mais enjoadas... só que a mãe do seu pai foi, principalmente quando estava grávida dele e - como é que eu fui ignorar isso?! - você é um pedacinho considerável do seu pai dentro de mim!

E ainda tem o "pedacinho" que é só seu, que é totalmente novo. Do ponto de vista da genética não sei como isso se explica, mas a Maria - você já a conhece - me explicou que um novo ser não é simplesmente a soma de seu pai e sua mãe. Você sou eu; você é seu pai; e você é você! Não é lindo?

E é por isso que muitas mulheres passam mal durante a gravidez e das mais variadas formas... o corpo, ou melhor, os corpos da mãe precisam se adaptar a toda essa novidade, a toda essa bagagem externa que de repente se mistura à sua. E em muitos casos não é assim tão elementar... acho que somos um desses casos...

Mas, filho, você é muito bem vindo e muito amado. E tem um pai muito bacana que nos apoia e nos protege e que me deixa "passar mal sossegada", se é que isso é possível, rs... mas quero dizer que ele tem sido tão generoso e paciente conosco, que merece esse reconhecimento. Eu fico imaginando como vocês vão ser companheiros, tenho certeza!

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Eu quero ser uma mãe-macaca


Eu estava no freeshop do aeroporto de Istambul (gente fina é outra coisa, eu sei!), quando parei em frente a uma prateleira de bichos de pelúcia. Era uma linha do WWF com bichos e seus filhotes, a coisa mais fofa!

A essa altura eu já sabia que estava grávida, mesmo sem as comprovações laboratoriais, e esse apelo materno-faunístico me fisgou. Tinha leoas, ursas, tigresas, lobas, todos esses grandes mamíferos sedutores e apaixonantes, mas não teve jeito, quando eu vi essa macaca com esse macaquinho, eles pularam no meu colo! Sei que os primatas também são apaixonantes, mas frente aos grandes felinos, ursídeos e até canídeos, eles ficavam em segundo (ou quarto) plano.

Só que de repente eu queria ser aquela macaca, com aquele filhote agarradinho a ela. Olha só a cara dela de orgulho e satisfação! E o filhote? Um pouco assustado, mas enquanto ele estiver em contato com aquele pelo de mãe, tem a certeza de que nada pode lhe fazer mal. Viagem de grávida? Pode ser, mas essa leitura me foi automática quando vi esses simples bonecos.

E aí eu resolvi que quero ser uma mãe-macaca! (peço licença aos bichólogos de plantão, pois minhas impressões de uma macaca são totalmente leigas e posso falar alguma besteira do ponto de vista biológico... de qualquer forma, o arquétipo que formei é esse...)

Eu quero ter o humor de uma macaca. Não são bichos engraçados? E humor traz leveza... não há cara feia que um sorriso sincero não dissolva.

Eu quero ser acolhedora que nem uma macaca. Quero ficar com meu filhote agarrado a mim o tempo todo, no colo, nas costas, acordado, dormindo, mamando. Imagine que delícia ficar em um colo de macaca, macio, fofinho, cheiroso (do ponto de vista do filhote macaco, é claro, rs...).

Eu quero ser protetora que nem uma macaca. Ela é engraçada, ela é acolhedora, mas tente tirar seu filhote pra ver o que acontece! Existem dentes e músculos fortes prontos a proteger a cria, sem meias palavras e com a rapidez que a vida exige.

Eu quero ser irracional que nem uma macaca. Quero seguir meus instintos sem pensar, sem racionalizar, sem ser razoável, sem querer agradar aos outros, sem fazer firulas, sem abrir concessões.

E eu quero ter a mesma certeza de estar fazendo tudo certo que tem uma macaca.

Esse desejo, o de ser uma mãe-macaca, é o meu primeiro desejo de mãe. Porque eu sei que meu filhote será um macaquinho e merecerá ter uma mãe-macaca!

E por falar em querer e desejos, a trilha sonora que embalou esse texto foi a seguinte, na voz do Milton, lindo, lindo, lindo!

Mistérios
Um fogo queimou dentro de mim
Que não tem mais jeito de se apagar
Nem mesmo com toda água do mar
Preciso aprender os mistérios do fogo pra te incendiar

Um rio passou dentro de mim
Que eu não tive jeito de atravessar
Preciso um navio prá me levar
Preciso aprender os mistérios do rio pra te navegar

Vida breve, natureza, quem mandou, coração

Um vento bateu dentro de mim
Que eu não tive jeito de segurar
A vida passou pra me carregar
Preciso aprender os mistérios do mundo pra te ensinar

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Vou sentindo cada vez mais seus movimentos. É estranho, mas a sensação mudou. No primeiro dia era um movimento sinuoso, depois venho sentindo movimentos mais diretos, não sei explicar.

Mas é muito bom, nos aproxima, torna sua existência menos etérea, mais terrena.

Comecei a ler um livro que a "tia" Marina nos emprestou, chama A vida secreta da criança antes de nascer. O autor fala da importância de se comunicar com o bebê ainda dentro da barriga. Ele fala que a vida no útero é muito solitária, porque muitas vezes não existe essa comunicação, uma vez que a mãe está preocupada com os assuntos "de fora" e por mais que esses assuntos tenham a ver com a chegada do bebê - preparação para o parto, enxoval, quarto, chá de bebê - a comunicação direta é muito importante.

Filho, confesso que pra mim ainda é estranho "conversar com uma barriga". Eu faço isso, venho fazendo cada vez mais, mas ainda requer certa concentração e esforço. Obrigada por ter me ajudado nessa aproximação... cada vez que você se mexe forte o suficiente pra eu sentir, fica mais fácil conversar com você.

domingo, 4 de novembro de 2012

Vida, Morte e Destino

O encontro com a Vida nos lembra da existência da Morte.

Provavelmente por isso a gravidez e principalmente o parto tragam consigo tanto medo. Se em nossa cultura a relação com a morte não é das mais bem resolvidas, nesse momento de celebração da vida a possibilidade  da morte torna-se ainda mais pavorosa.

E tal como personagens das tragédias gregas, podemos correr em direção ao nosso destino ao tentar fugir dele... o ensinamento é claro: não há como fugir. Dessa forma, o que nos resta é encará-lo e vivê-lo. "Tudo é uma questão de manter a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranquilo".

Por outro lado, não podemos fazer como o fiel que em meio à enchente aguarda a salvação do Todo Poderoso. Se você não conhece a história, ela é mais ou menos assim: um homem muito crente, de fé fervorosa, está ilhado em meio a uma grande enchente; ele começa a rezar e pedir a Deus que o salve; não demora e aparece uma pessoa agarrada a uma boia dizendo pra ele se agarrar também; ele recusa e diz que Deus o salvará; ele continua rezando e dali a pouco surge alguém num barquinho, oferecendo ajuda; mais uma vez ele recusa e diz que Deus o salvará; a enchente piora, as águas sobem rápido, mas ele continua com rezando com fé, até que surge um helicóptero oferecendo uma corda e mais uma vez ele recusa, confiando na salvação divina; pouco tempo depois ele é levado pela enxurrada e morre; chegando no céu ele encontra com Deus e o questiona, dizendo que foi fiel à sua fé durante toda sua vida e que estava muito decepcionado com Deus, que o tinha abandonado, ao que Deus, pacientemente, responde: "mas eu atendi aos seus pedidos! Enviei uma boia, depois um barco e por fim até mesmo um helicóptero! O que mais você queria?!".

Não acredito que o destino seja algo determinado e imutável. Estudei um pouco sobre a Lei do Karma, o suficiente para saber que nosso destino molda-se constantemente, de acordo com nossas atitudes, de acordo com nossas escolhas.

É difícil saber de antemão em que cada atitude e cada escolha resultará e ninguém está livre de equívocos... por isso que é tão importante conhecer-se, estudar-se e confiar nos próprios sentidos e na própria intuição.

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Escolha ou beco sem saída?

Depois que conheci a possibilidade de um parto em casa um novo mundo de luz e esperança se abriu em minha vida. Não é exagero! Antes disso eu não queria ter filhos e muito desse pânico se devia às intempéries hospitalares, que eu nem conhecia em detalhes, mas que já eram suficientes para me manter afastada desse cenário.

Conforme fui conhecendo o parto em casa e todo o movimento em torno dessa prática, as tais intempéries hospitalares foram ficando mais definidas, concretas, informadas e cada vez mais cinzentas e assustadoras. Se antes eu já queria ficar longe de hospitais, depois dessas informações eu vi que realmente não teria a menor condição de eu ir, feliz e de livre e espontânea vontade, entregar a esse ambiente um dos momentos mais preciosos da minha vida e da vida de uma das pessoas mais preciosas da minha vida.

Mas tudo seria perfeito se não tivesse os "e se". E se acontece alguma coisa? (com aquela entonação de Harry Potter e seus companheiros falando de "Você-sabe-quem"). Claro que não vou falar dos "e se" porque estou grávida e isso não é assunto pra grávida, mas a partir do momento em que uma gestante resolve parir no aconchego do lar, por mais bem preparada e bem acompanhada que esteja, precisa ouvir que está tomando uma atitude irresponsável, que não sabe dos riscos que está correndo, que está colocando seu filho em risco, etc, etc, etc...

As subversivas que pregam o parto em casa (existem homens também, mas prefiro usar o plural no feminino aqui... sorry rapazes...) esforçam-se em divulgar informações, estatísticas, dados, relatos de que não há nada mais seguro do que parir em casa (para uma gravidez que transcorre normalmente, é claro).

Então o jeito é manter a escolha em certo sigilo e não dar ouvidos aos "e se" que a turma do ai-que-medo insiste em apurrinhar.

Mas, vem cá, você que é adepta do parto em casa, me diga (e que "os outros" não nos ouçam): parir em casa é escolha ou beco sem saída?!

Pois eu, por mais segura e satisfeita que esteja com a minha escolha (ou "escolha"), de repente me sinto em um beco sem saída, me sinto na verdade excluída e marginalizada. Sinto-me, sinceramente, excluída dos avanços da medicina, de um aparelho ou dois, de uma droga ou outra que poderia evitar complicações e até mesmo salvar uma ou duas vidas. Não chega a me deprimir nem revoltar, pois, sinceramente, acredito menos nos avanços da medicina, seus aparelhos e drogas, do que na sabedoria da natureza...

Mas, enfim, sobre as escolhas, Escolha (sem aspas e com E maiúsculo) seria se tivéssemos hospitais com ambientes respeitadores, tanto da mãe, quanto da família, quanto - e principalmente - do nascente. Sei que existem hospitais que pregam um atendimento humanizado e blá, blá, blá, mas esse discurso ainda não me convence, principalmente com relação às rotinas aplicadas ao recém-nascido (quem conhecer algum hospital realmente humanizado - ou o termo que for - , aqui no Brasil, por favor, me conte).

E eu acho que por mais "legal" que seja o hospital, sempre terão aquelas regras que todo mundo tem que cumprir, como se todo mundo fosse igual. E regras pra quê? Pra facilitar a vida deles, é claro! Pra poupar a equipe, pra facilitar o preenchimento das fichas, pra pegar bem nas estatísticas.

Estou dizendo tudo isso não pra expor minhas escolhas, mas pra cutucar um pouco a militância em defesa do direito de escolha da mulher quanto ao local do parto, pois é fato que existe uma "caça às bruxas" pra quem ousa desafiar as verdades médicas (aliás, Bruxas, parabéns pelo seu dia! Sigam, sigamos, usando nossos dons, apesar das fogueiras). Digo, então, que não basta que consigamos o direito de parir onde julgarmos conveniente (dá até vergonha de escrever isso... que absurdo), mas precisamos ter direito a um acompanhamento profissional especializado (é aí que o movimento levanta sua bandeira, para que médicos e enfermeiras possam atender sem perseguição fora do ambiente formal hospitalar), mas precisamos ter direito também a um ambiente hospitalar respeitoso, que enxergue pessoas e não números, que respeite escolhas e que deixe um pouco com que os indivíduos assumam alguns riscos, de forma consciente e verdadeira, sem manipulações (isso sim é escolha! Se eu não quero dar a vacina X ou o colírio Y, tenho direito a ter essa escolha respeitada! Por que tenho que ser tratada como uma criança que não sabe das coisas ou uma adolescente rebelde?!)... ah, deixa pra lá, isso me parece tão utópico que nem caiba em uma bandeira...

É, bruxas, o preço que pagamos é alto, mas quem conhece a liberdade sabe que esse é o único caminho viável.


PS - deixo aqui uma ressalva quanto ao movimento pelo parto em casa, pois não conheço detalhes e tenho praticamente certeza de que existam reivindicações com relação às rotinas hospitalares, mas é que daqui, do fim da linha, do ângulo de quem não está no centro das discussões, me pareceu que a questão seria lutar pelo direito de parir em casa e só, e isso pode excluir muitas mulheres que querem a segurança hospitalar, mas que tem igualmente o direito à informação e ao respeito às suas decisões.


quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Esses dias eu percebi que você não é um nenê. Eu percebi que você é um ser, um ser completo.

Foi ao mesmo tempo muito clara e muito surpreendente essa constatação.

Eu estava pensando em você, conversando com você e eu conversava de igual pra igual, com alguém que tinha total capacidade de me entender. Nesse momento eu percebi como os adultos subestimam as crianças! E se com as crianças já é assim, com nenês é muito mais... e progressivamente com os fetos e embriões. Não se tratam de folhas em branco... essas almas carregam uma história... que deve ser considerada e respeitada.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Leitura pra esfriar a cabeça

A minha parteira =D falou que eu estava de cabeça quente e pés gelados e mandou inverter essa história... até aí, nenhuma novidade: pé quente, cabeça fria! Ela perguntou o que eu andava lendo e eu, com cara de paisagem, respondi: "ãhn? não, nada em especial..." Mentira, mentira, mentira deslavada, que feio! O fato é que eu acabara de comprar dois livros da Laura Gutman e estava a um quinto de terminar o segundo e mais casca grossa, desses de deixar a cabeça bem quente mesmo... é claro que eu não ia contar isso pra ela! =D

Pois bem, mas ela é dessas bruxas para as quais não adianta mentir... fez uma cara de "ãhã, vou fingir que acredito" e me mandou ler Turma da Mônica. Mentirosa, mas obediente, saí do consultório e comprei uma revistinha do Chico Bento - ah, que doces lembranças as leituras do Chico Bento, tão remetentes à minha infância na roça... e lá fui eu, feliz da vida, esfriar a cabeça!

Má quê? Pra começar já fiquei chocada ao saber que a Mônica vai casar com o Cebolinha (que agora chama Cebola!), num anúncio da revista especial da Turma da Mônica Jovem. Chocada mesmo! Ok, vamos em frente... vamos entrar na roça, nadar em rio e roubar goiaba do Nhô Lau!

Só que comecei a achar aquelas historinhas meio estranhas... sei lá, umas atitudes esquisitas, umas condutas questionáveis... será que sempre foi assim e eu achava normal ou é o fim do mundo se aproximando mesmo?! A gota d´água foi uma historinha na qual a Rosinha dá sucessivos ataques de ciúme e o Chico vai se explicando, até que ele fica com ciúme de um rapaz e a Rosinha acha o máximo - ?!?!?!. Se fossem adultos já seria muito triste, mas, hello!, são crianças! Personagens crianças falando para leitores crianças!

Logo vi que não seria por ali que iria esfriar a cabeça... e então lembrei da minha querida, amada, adorada, salve, salve Mafalda!!!

Corri pra estante e comecei a me deliciar com as histórias dessa turminha do barulho, que já trata de fazer as análises críticas, deixando pra gente as risadas de um humor inteligente e agudo.

E qual não foi minha surpresa ao descobrir que o Quino, o feliz autor, chama-se Joaquín! Com todo respeito ao pai de Maria, avô de Jesus (todo respeito mesmo, é sério), mas agora o nome do filhote ganhou um brilho todo mais especial :)

Seguem então algumas tirinhas que separei para ilustrar O Filho do Aralume. Por incrível que pareça, ando me identificando muito com a Susanita, rs...




Essa última eu atualizaria dizendo que não estou nem aí pra superpopulação e que eu quero é ser mãe! Durmam com um barulho desse...

E pra Mafalda não ficar se sentindo rejeitada, segue uma dela genial (genial dentro desse tema, pois tem váááááárias geniais!).


segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Joaquim, hoje senti você mexer pela primeira vez! Levei um susto! A sensação era que tinha um peixe dentro da minha barriga... mais tarde, de novo, a mesma sensação e o mesmo susto...

A gente vai se acostumando aos poucos um com o outro, né filhote?

terça-feira, 9 de outubro de 2012

O direito sobre o próprio corpo

Já faz um tempo que vi uma campanha para legalização do aborto que colocava esse argumento, o de que as mulheres devem ter direito sobre o próprio corpo. Aquilo ficou maturando dentro de mim e agora acho que consigo escrever um pouco sobre o tema.

Eu realmente acho muito estranho que o Estado regule algumas coisas, que deveriam ser decididas caso a caso e pelos principais envolvidos. Mas por outro lado, entendo que existe um interesse coletivo nas ações individuais, uma vez que vivemos em sociedade e que nossas decisões interferem na vida alheia, em maior ou menor grau, agora ou daqui a pouco.

E justamente por ver as coisas assim, acabo não conseguindo me posicionar... penso que em uma sociedade ideal (e, portanto, utópica), cada indivíduo teria clareza e ajuda para resolver seus conflitos, sem a necessidade de leis; e resolvendo dessa forma, seria preservado o bem estar pessoal e, consequentemente, o coletivo. Não sei se simplifiquei demais, mas acredito que pessoas que empreendem uma busca genuína de autoconhecimento e que são acompanhadas por pessoas mais experientes (por mais experiente entenda-se com mais estudo e com mais vivência em determinado tema), são pessoas que tem como tomar decisões mais acertadas.

De qualquer forma, acho que deixar as decisões nas mãos de outros - seja o Estado, a Igreja ou o patrão - nunca é um bom caminho... parece que estou conseguindo me posicionar...

Mas deixemos de lado um pouco as questões legais para pensar na coisa em si.

De antemão já digo que aborto nunca foi um caminho elegível para mim. Mesmo nos sustos da adolescência, realmente nunca passou pela minha cabeça essa possibilidade. Ok, é bem provável que eu tenha mais medo de procedimentos médico-cirúrgicos do que de ser mãe, então não me coloco em nenhuma categoria "nobre" e nem defendo nenhuma grande ideologia. É medo de agulha mesmo!

Mas agora, depois de ter passado por um aborto espontâneo e estando grávida, consigo ver as coisas de outro prisma... e digo, já sabendo que estou cutucando polêmica, que decidir sobre outra vida não é a mesma coisa que ter direito sobre o próprio corpo.

Uma vez que houve aquele antológico encontro entre óvulo e espermatozoide, uma nova vida começou. Uma NOVA vida, uma OUTRA vida. Não se trata mais do seu corpo... e essa é uma coisa que tenho aprendido a duras penas... não se trata mais do meu corpo... a partir do momento em que ele é base para a formação dessa outra vida, não sou mais só eu e isso é MUITO louco!

Veja, se você já fez um aborto, não quero te atacar e muito menos te fazer se sentir mal. O que está feito, está feito. E tenha compaixão consigo própria, confiando que naquela situação aquela era a única decisão viável, simplesmente porque foi a que foi tomada. Trate de curar as feridas e seguir em frente...

E de qualquer modo, não escrevo para fazer nenhuma campanha, mas apenas para dar minha contribuição pessoal à discussão.

É fato que um filho implica em muitas mudanças, algumas das quais eu vislumbro e outras que certamente nem tenho ideia. É fato que muitas pessoas não se sentem preparadas para serem mães/pais, mas, sinceramente, quem tem essa segurança?

E se não for o melhor momento pra ter um filho? Me responda: quando será?!

Temos instrumentos anticoncepcionais suficientes para ir adiando até o "melhor momento", mas se esses instrumentos falham, não seria uma boa oportunidade para repensar o posto de "comando" em que nos colocamos frente à natureza?

Sei que existem muitas outras questões... às vezes é muito cedo, às vezes a escolha do pai foi infeliz... (pobres pais... quase nem chegam a fazer parte da discussão... quase que uma desforra feminina ao autoritarismo masculino...).

Eu sinceramente não sei o que traz mais prejuízo à sociedade, se um filho indesejado ou se uma mulher mutilada... mas desconfio que em ambos os casos o ônus é de todos e a responsabilidade também. Se nossas ações refletem nos outros, também somos vítimas de ações alheias e dessa forma não dá pra "jogar a culpa" em ninguém... a única saída é se ajudar, é estar atento ao outro, é estar disponível. E isso não quer dizer se alistar em algum programa de voluntariado, mas simplesmente olhar para a própria família, para os amigos próximos, o que muitas vezes é mais difícil, mas justamente por isso, mais necessário.

Se tem alguém sofrendo de solidão é porque outro alguém lhe nega companhia e apoio. Quem é você nessa história?


quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Esperando


A minha parteira (ai, adoro dizer "minha parteira"... desculpa aí, mas deixa eu curtir "ter uma parteira", rs...). Bem, a minha parteira fala que antigamente quando uma mulher estava grávida dizia-se simplesmente que ela estava esperando. E de fato era isso o que ela fazia: esperava. Com relação à gestação não há muito mais o que fazer, a não ser esperar...

Ah, mas e as aulas de yoga, as sessões de terapia, os complementos vitamínicos, o quarto do bebê, o enxoval, o parto?! Tem que se preparar para o parto! É um tanto de coisa que nós, grávidas urbanas, temos que fazer que chegamos a esquecer que estamos esperando.

Dessas coisas que citei, algumas são porque não vivemos mais no "antigamente" e temos que pagar a conta dos tempos modernos, reaprendendo a nos conectar com nossos instintos e a dar ouvido à nossa intuição. E outras são para deixar a espera menos tediosa... é dessas que quero falar!

Eu nunca gostei de esperar e acho que a maioria das pessoas não gosta. Aquela sensação de estar "perdendo tempo" me mata! Por que não resolve isso logo? Cadê o [coloqueaquioquevocêquiser] que não chega? Só daqui X meses?!

Mas também tenho aprendido que as coisas tem seu tempo e basta olhar pra natureza pra ela nos lembrar disso. Vejo da janela a mangueira carregada de flores... alguns ramos já trazem mini mangas... que vontade de comer manga! Ok, posso ir até o supermercado e comprar manga, mas ver essa árvore me lembra que certos ritmos e certos ciclos independem da nossa vontade. A manga estará madura quando ela tiver que estar madura... se tem plantios que aceleram esse processo, tudo bem, mas tudo tem seu preço (e o preço da pressa costuma ser alto... bem além da simples falta de perfeição...).

E a espera da chuva? Já ouvi falar de um japonês que faz chover, mas de forma geral todos ainda temos que esperar pela chuva... dança, mandinga, pajelança, pode ser que resolva, mas pode ser que seja só pra ajudar a passar o tempo e fazer com que a espera seja menos tediosa e sofrida.

Na gravidez, a mesma coisa. Você pode até marcar uma cesariana e achar que pôs fim à espera, mas aquelas 38 semanas você vai ter que esperar...

O que fazer então? Tricô!

Estou redescobrindo o prazer de tricotar e nesse contexto está ainda mais legal. É uma atividade tranquila, mas que também exige concentração e atenção; é também uma atividade que ajuda a esquecer da pressa e a entrar no tempo natural das coisas; e é uma atividade que produz algo para o filhote que está sendo tricotado lá na barriga. Cada pontinho leva o carinho das mãos da mãe, que vai envolver o corpo do bebê.

E se a lã for "de verdade" melhor ainda! (infelizmente a maioria das lãs é 100% acrílico, ou seja, é puro petróleo e não tem nada de lã, mas é possível encontrar lã de verdade em algumas - poucas - lojas. Uma delas é a Novelaria, onde acabo de comprar alguns novelos e não vejo a hora de começar o próximo trabalho!).

Se você não sabe e nem tem o privilégio de ter uma mãe pra te ensinar, não se desespere. Os tempos modernos tem seus prejuízos, mas tem também suas vantagens. Na Novelaria tem cursos de tricô e crochê e acho que é só procurar um pouco pra encontrar outros lugares.

Se tricô não é a sua praia, não tem problema... mas sugiro humildemente algum trabalho manual, que, além de tudo, ainda nos conecta com as antigas tarefas femininas, coisa que a querida parteira também enfatiza. Pode ser cozinhar, costurar, bordar, tecer, plantar (na jardinagem tem que tomar um pouco de cuidado com os contaminantes da terra... geralmente recomenda-se a utilização de luvas).

Assim a espera fica mais leve, mais prazerosa. E o objetivo não é "passar o tempo", nem fazer com que o momento "chegue logo", mas sim curtir a caminhada e deixar com que a natureza flua tranquilamente.

No topo da postagem o primeiro sapatinho que fiz para o Joaquim! Nível extra-fácil e ainda assim apanhei um pouco... Mas no final consegui até fazer um enfeitinho de crochê (a borda branca), coisa que pra mim foi uma grande conquista! Conquistas que não seriam possíveis sem a presença e empolgação da minha mãe, que fez esse sapatinho branco, o primeiro dela pra ele também. Esse é do nível vó! Vó que já fez enxoval pra três filhos, diga-se de passagem ;)

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Filho, tem acontecido uma coisa engraçada. Quando me percebo pensando em como você será (será que alguma mãe escapa?), não penso em você bebê, nem em você criança... penso em você jovem.

Numa dessas vezes eu estava no ponto de ônibus e comecei a reparar nos rapazes - e foi igualmente estranho e engraçado reparar nos rapazes com um "olhar de mãe"! Pequenos indicadores de que já não sou mais a mesma... mas aí eu pensava: "Será que o Joaquim vai ser como esse? Ou como aquele? Será que vai ter um estilo nerd-executivo? Será que vai ser mais "largado"?".

Me deu uma vontade de te conhecer... de te ver grande, pegando ônibus, lendo um livro, de mãos dadas com uma menina...

Mas fique tranquilo, filho. Não apressemos o tempo, que já anda por demais apressado. A vontade de te conhecer bebê também só aumenta e o melhor é que você vai caber no meu colo!


segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Conseguimos, finalmente, captar o seu nome! Então quer dizer que você se chama Joaquim?!

Ai, filho, desculpe essa mãe meio lerda... você estava tentando me dizer desde o começo! E foi o seu pai que captou e que "resolveu". Só então fui me lembrar que desde o início eu tinha vontade de te chamar de Juca.

Talvez eu tenha sido ofuscada pelo seu verdadeiro nome. Tão verdadeiro que não cabe nesse mundo. Lago Sereno de Sabedoria Profunda. Mas pra simplificar as coisas, seu apelido nessa vida será Joaquim. Apelido que permite uma infinidade de outros apelidos. Quincas, Quim, Quino, Joca e o meu preferido: Juca. Os diminutivos ficam por conta da pseudo sensação de que você é pequeno. Mas eu sei que não é e nunca será. Você é grande de alma e de coração... e além disso seu médico fala que você é um nenê GG, rs...

Bem vindo filho, bem vindo Joaquim!



quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Filho, no fim de semana nós fomos pra Cardoso, a terra da família do seu pai. É looooonge... no caminho me deu uma vontade de tomar suco de tamarindo. E não é que chegando lá, na casa do "Tio Montinho", tinha polpa de tamarindo?! Mas não era dessas industrializadas, não! Era uma polpa fresquinha, artesanal, feita pela cunhada da vizinha da prima da tia (lá todo mundo é parente!). O suco estava uma delícia e depois seu pai foi num sítio que tinha um pé de tamarindo, aí ele colheu um monte pra nós. Estou aqui chupando "balinhas" de tamarindo, azedinhas, gostosas, cada semente uma balinha... rende que só!

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Ser mãe em uma civilização patriarcal

Foi quando comecei a praticar yôga, um yôga de linha tântrica* e, portanto, matriarcal, que foi sendo chamada a minha atenção para essa dualidade, para o fato de que nossa civilização é patriarcal e como isso pode ser muito triste e prejudicial, não apenas para as mulheres, mas para toda a humanidade.

Logo em seguida, quando conheci meu querido Dr. Edison (conheça-o também aqui), a temática ficou ainda mais presente, pois era tema frequente em suas falas os prejuízos catastróficos do que ele chamava de "patriarcado econômico", que é esse sistema maluco no qual estamos todos imersos e do qual não sabemos como sair...

E agora, mais uma vez a terminologia e suas definições vem à tona, na fala da escritora argentina Laura Gutman (também peça do meu quebra-cabeça, saiba aqui), que tive o imenso prazer de ouvir e assistir esse domingo, no primeiro evento que ela participou no Brasil.

Pois bem, sendo as palavras da Laura as mais recentes, vamos a elas:

A civilização patriarcal está baseada na conquista e na dominação, enquanto que uma civilização "matrifocal" (esse termo é novo pra mim) baseia-se na liberdade sexual, na solidariedade e na ecologia.

Adendo meu, com base nos estudos anteriormente citados: as civilizações patriarcais tiveram início em um período de guerras e conquistas, alguns milhares de anos antes de Cristo, só pra situar um pouco o contexto histórico. Não sei direito por que raios esse povo resolveu que tinha que guerrear e conquistar, mas o fato é que eles tinham como objetivo formar guerreiros, pois disso dependiam suas vitórias. E guerreiros não se formam na barra da saia de suas mães... e mães que deixam fluir seus sentimentos e intuições não permitem que seus filhos sejam delas separados... e assim surgiu a repressão e a ordem de banir qualquer tipo de sensorialidade... mesmo porque, de que servem guerreiros "sensíveis"?!

Voltando à Laura, veja como ela elenca as principais ferramentas do patriarcado (comentários meus em itálico):
- Separação do bebê do corpo da mãe: o bebê sente raiva e se torna uma pessoa agressiva (isso é genial para formar guerreiros!)
- Mãe que permite a separação, afinal, ela já sentiu raiva e já sofreu separações (por conta de um sistema repressor, que pune sem dó qualquer um que saia da estratégia estabelecida)
- Repressão sexual (é justamente por esse detalhe que o Tantra é equivocadamente associado a exotismos sexuais... interpretação de quem foi e é absolutamente reprimido em todos os seus prazeres): corpo é pecado, contato é pecado, prazer é pecado. O melhor é não sentir. (Claro! Imagina um soldado em campo de batalha buscando o prazer! Imagina um soldado sentindo solidariedade por um inimigo! Imagina a mãe sentindo falta do seu filho...). Essa é a principal ferramenta da conquista.

E para que o "mal seja cortado pela raiz", o sistema patriarcal tratou de fazer com que as mulheres parissem em cativeiro, em uma situação tão insólita, tão diferente do seu "habitat natural", que faz com que ela mal reconheça sua cria, dificultando, ou melhor, impedindo, um contato verdadeiro e profundo entre mãe e filho, facilitando, dessa forma, sua separação.

Sim, meus caros, a civilização patriarcal é baseada na crueldade (palavra da Laura).

O seminário dela abordou muitas outras coisas, mas por enquanto vou me ater a esse aspecto, no qual tenho interesse particular, justamente porque estamos tão imersos nessa civilização e temos tão poucos registros de outra possibilidade, que ter ações fora do sistema parece algo intangível, mas ao mesmo tempo vital.

Uma portinha, apontada pela Laura, é se observar em ações e vocabulários simples, que são grandes armadilhas. Por exemplo: combater é um verbo e uma ação essencialmente patriarcal. Mesmo que você queira "combater a violência"... você está em combate, percebe? Você está se transformando em um guerreiro e, das duas, uma: ou o guerreiro sufoca até a morte seus sentimentos, ou ele sucumbe, sucumbindo também sua batalha.

O que dizer então do verbo conquistar? A conquista é um grande pilar do patriarcado. Dizer que queremos "conquistar o afeto, conquistar o amor" é mais uma dessas armadilhas. Parece bobo? Então vale a pena estudar um pouco o poder das palavras (Laura falou disso também, especialmente das palavras proferidas de mãe pra filho).

Outra portinha aberta pela Mestra é que, segundo um pensamento matrifocal, a mudança deve ser interna, íntima e pessoal. "Mudar o mundo" é o equivalente a "conquistar o mundo" e isso é patriarcal, isso é repressor, isso é dominador... e não é assim que as coisas vão dar certo...

Eu, sinceramente, saí de lá com o coração tranquilo. Eu, que tenho ímpetos guerreiros, que me identifico com as Amazonas, que muitas vezes quis empunhar bandeiras e ir para o campo de batalha, comecei a entender que o que eu menos quero são batalhas; comecei a entender que o meu protesto é não participar disso; comecei a entender que a minha contribuição limita-se a, no máximo, escrever, já que lê quem quer e aplica quem tem vontade e identificação. Vontade é um termo que considero, aqui na minha insignificância, bastante matriarcal. Se tem vontade, faz, se não tem, não faz. Simples assim. E dessa forma vamos dando ouvido a nossas vontades, que vão surgindo de forma cada vez mais clara e objetiva e são as guias mais preciosas para nossa felicidade e bem estar. E uma comunidade feliz só pode ser feita com pessoas felizes...

E sabe qual é a sensação mais forte que me veio com essa história toda? A sensação de que eu sou LIVRE. Se a mudança está em mim, e só em mim, isso me traz uma liberdade imensa. É difícil explicar... qualquer hora eu consigo...

Por fim eu gostaria de lembrar que uma civilização matriarcal, ou matrifocal, é aquela baseada em conceitos relativos não ao feminino, mas à maternidade. O "feminismo" já deu sua contribuição, mas não conseguiu sair da teia de um sistema patriarcal... 


* segundo aprendi com meu Mestre, as inúmeras linhas de yôga dividem-se, entre outras coisas, em duas tendências de fundamentação filosófica, que são o Tantra e o Brahmachárya. Essas correntes dizem respeito a filosofias comportamentais, sendo que a primeira, mais antiga, caracteriza-se por ser matriarcal, sensorial e desrepressora e a segunda, surgida em meio ao período de guerras e conquistas, carateriza-se por ser patriarcal, anti-sensorial e repressora. Infelizmente (na minha opinião, é claro!), a grande maioria das linhas de yôga baseia-se na segunda corrente filosófica, embora muitos instrutores nem se atentem a isso e os praticantes muito menos.

Agora foi a vez do seu avô pai do seu pai. Pra ele a encomenda foi de açaí! É que ele tem uma fazenda no Pará (que, aliás, está se preparando para ser uma grande produtora de açaí) e é só por lá que se encontra o açaí "de verdade", sem adição de guaraná e açúcar, que tiram totalmente o gosto original dessa frutinha deliciosa.

Claro que o pedido foi atendido prontamente e com a fartura que caracteriza sua família paterna! O congelador ficou lotado de saquinhos de açaí, que dividimos com seus priminhos.

Quanto a mim, fiquei com a boca roxa e a gente gostou tanto, mas tanto, que fico até economizando a iguaria. Tenho certeza que você também vai gostar e vai comer lá, no Pará, de pés descalços pelo terreiro, a caminho de algum igarapé :)

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Você tem uns avós tão bacanas... hoje vou falar dos "do meu lado". Outro dia liguei pra sua vó e falei:
- Mãe, to com uma vontade de comer sagu...
- Ah, não diga! De que?
- De abacaxi...
- Olha, comprei um abacaxi hoje! Vou fazer!

Isso foi à noite. No dia seguinte, logo cedo, fui lá e o sagu estava pronto, uma delícia!!!

Aí em outro episódio comentei com seu pai que estava com vontade de comer jabuticaba no pé. Ele disse na hora pra eu ligar pro seu avô e acabei não ligando... mas ontem ele veio aqui em casa e seu pai lembrou da história:
- Cassiano, sua filha tá com vontade de comer jabuticaba!
- Ah, mas eu sei onde tem, comi ontem! Vamos que eu te levo lá!

E lá fomos, na casa da Marisa e do Jonathas, amigos músicos que tem o privilégio de ter uma jabuticabeira no quintal!

Pelo jeito você já está se dando muito bem com esses avós, que atendem prontamente suas vontades ;)
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Agora lembrei de uma frase que seu vô falou lá de cima da jabuticabeira:

"Jabuticaba é que nem gente: pra estar boa tem que estar brilhando!"

Esse é o Cassiano...

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Os tempos modernos e a solidão da maternidade


Nem vou fazer o tão batido discurso de que as mulheres de hoje em dia são sobrecarregadas com a obrigação de serem profissionais bem sucedidas, de terem filhos adoráveis, um marido igualmente bem sucedido e adorável, uma casa linda e uma imagem perfeita. Disso todo mundo já sabe. Mas a ficha que vem me caindo lentamente é que, no meio desse furacão, nós mulheres, ao invés de nos unirmos estamos ficando cada vez mais isoladas.

Com as famílias cada vez menores e mais separadas, parece que temos depositado todas as nossas esperanças - em vão - nos maridos, cobrando deles atitudes e decisões que não lhes competem, o que só faz por erodir a relação, complicando ainda mais o quadro, que no limite vai resultar em realmente assumir tudo sozinha e, aí sim, ver o que é assumir tudo sozinha.

E por falar em famílias menores e mais separadas, nossas mães, irmãs, tias, primas ou estão longe, ou não fazem as coisas como nós gostaríamos que fizessem, ou tem seus mil e um afazeres dos quais ninguém escapa nessa vida caótica.

E por falar em vida caótica, as amigas... elas que, ao contrário da família, são nossas escolhas voluntárias, que compartilham afinidades, que tem no sangue as dores e as delícias da nossa geração... me diga, quem pode, realmente, contar com uma amiga? A empregada não veio, não tem com quem deixar as crianças, alguém aciona uma amiga?! Menos grave: o casal quer, merece e precisa de um fim de semana a dois, de namoro e sossego, dá pra deixar as crianças na casa de alguma amiga?! Ou nem precisa de um apuro, mas o hábito cotidiano de "dar uma passada", comer um bolo, falar da vida (ah, como é importante falar da vida!) enquanto a criançada - das duas - coloca a sala de ponta cabeça.

Com certeza a vida em grandes cidades dificulta. Com um trânsito paulistano à frente ninguém "dá uma passada" em lugar nenhum. Sem falar das distâncias entre cidades, estados e países, que muitas vezes vão separando as amigas, que cresceram juntas, estudaram juntas, se formaram juntas (formar enquanto ser humano mesmo, não na faculdade... às vezes sim, também...).

A estrutura de trabalho que ainda nos aprisiona também não ajuda em nada. Se a empregada não veio e não tenho com quem deixar as crianças porque preciso ir trabalhar, certamente minhas amigas – com ou sem crianças – também precisam ir trabalhar!

Morar em cidades pequenas com as amigas por perto, ter horários e responsabilidades de trabalho flexíveis... pode ser um sonho, pode ser realidade, mas desconfio que não seria, por si só, a solução.

Tem um outro fator que parece determinante. Venha comigo, veja meu pensamento: a revolução dos métodos anticoncepcionais transformou algo que antes era inevitável, natural, líquido e certo - ter filhos - em uma questão de escolha, opção. Dessa forma, se você tem filhos é porque você quis e se eu não tenho é justamente porque eu não quis e não quero ter dor de cabeça com crianças. Se não quis e não quero com os meus próprios, que dirá com os de terceiros! No máximo um paparico pros sobrinhos, mas sem compromisso, devolvendo ao menor sinal de turbulência.

Quanto às mulheres que optaram por ter filhos, parece que, ao invés de ajudar aquelas que estão “iniciando na carreira”, assumem uma postura de “ah, eu dei conta dos meus, eu consegui. Se vira, agora é a sua vez!”.

É uma visão pessimista, mau humorada, assumo. Mas foi um lampejo. Claro que não vamos generalizar... não é uma regra, não existem regras, mas é possível que seja uma tendência.

Felizmente vejo grupos de mulheres se unindo e se ajudando, mas ainda é no âmbito das minorias, daqueles pequenos grupos resistentes e muitas vezes impertinentes, como os “ecológicos”, os vegetarianos, os místicos e bichos-grilo em geral.

Nesse aspecto, morar em grandes cidades ajuda, pois é lá que as coisas acontecem, é lá que surgem as novas tendências e as vanguardas. Mas a que preço?

O que fazer então? Não sei... o pensamento ficou sem desfecho. Não chega a ser uma tese, mas uma provocação.

segunda-feira, 30 de julho de 2012

sexta-feira, 27 de julho de 2012

No dia em que seu pai ficou sabendo que você estava a caminho ele acendeu uma fogueira.

Uma fogueirinha, pequenina no tamanho, mas tão grande em seu significado...

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Porque o verdadeiro reality show é a vida

Quando soube que estava grávida, com míseras 5 semanas de gestação, algumas pessoas me falaram para não falar, não contar. Dei de ombros e nem me esforcei para esconder o fato, mesmo porque não dá pra colocar um elefante debaixo do tapete! E a notícia era sim pra mim um elefante, pois, embora fisicamente eu estivesse totalmente à paisana, emocionalmente a situação era de uma euforia que eu não podia e nem queria ignorar na minha comunicação com os amigos.

E assim foi, contei pra todo mundo! Coloquei no blog, fiz o maior estardalhaço. Nas poucas vezes em que sonhei em ser mãe a parte que mais me empolgava eram as cenas imaginárias de eu contando pras pessoas que estava grávida! A partir daí fantasiei muito pouco, rs...

Embora desde sempre eu soubesse que as taxas de aborto no primeiro trimestre de gravidez são muito altas, eu não queria assumir uma postura de "peraí, vamos ver se vai vingar". Acho que isso até atrapalha a formação do vínculo mãe-filho, tão importante justamente no comecinho da gestação...

Eis que então eu caio no grupo dos 20%. Pra quem entende minimamente de números, essa taxa de 20% é alta... 20% das gestações são interrompidas naturalmente, segundo meu médico. Atenção: 20% das gestações, não das gestantes (estatisticamente falando - e isso não serve pra muita coisa - a cada cinco filhos, um não nasce). É realmente um número alto e não escapei dele.

Aí vem a parte chata, muito chata, que é contar pras pessoas. A primeira sensação é de um fracasso público, de expor uma impotência. E o pior é ouvir novamente que eu deveria ter esperado completar três meses pra contar que estava grávida... olha, desculpem se lhes apurrinhei, fazendo-os expressarem congratulações e pêsames e um espaço tão curto de tempo, mas essa é a vida, a vida real.

E no meio das mensagens de apoio (que foram mais numerosas e tiveram mais caracteres que as de congratulações - obrigada amigos!), começaram a pipocar notícias de amigas e amigas de amigas que já passaram por isso e que tiveram "dezenas" de filhos depois, dizendo pra eu não me preocupar, pra eu não desistir, enfim, mostrando como a situação é, infelizmente, comum. E se ninguém contar, como fica? Cada uma vai ficando apavorada, se achando a última das mortais.

Bem, em nenhum momento eu pensei que deveria ter escondido o fato de estar grávida, ao contrário: nos dias que sucederam o aborto, conforme eu ia lendo as mensagens, aquilo ia me confortando tanto que eu só conseguia me perguntar o que seria de mim (e do Paulo Cesar) se estivéssemos sofrendo no anonimato. Olha, se você me tem como amiga, não me esconda nenhuma dor, pois isso sim é traição! Se você tem amigos, você não tem o direito de sofrer sozinho!

Ok, concordo que colocar tudo no Facebook é um pouco demais, mas com os amigos cada vez mais longe as ferramentas internéticas ajudam nessa hora. É difícil estabelecer medidas e limites... no meu caso, a escrita é minha terapia, minha arte e minha voz. E quem faz arte quer platéia! Bom, tudo isso pra justificar um pouco a minha "superexposição", que pra mim nem é super, me dou muito bem com ela e até agora nunca me causou nenhum transtorno - que eu tenha detectado, já que existem também as teorias da inveja e do mau olhado, mas não tenho tempo pra elas. Eu estou vestida com as roupas e as armas de Jorge, para que meus inimigos tenham olhos e não me vejam e nem mesmo um pensamento eles possam ter para me fazerem mal... e por aí vai!

terça-feira, 24 de abril de 2012

Triste como um pôr-do-sol


Mas a minha tristeza é sossego
Porque é natural e justa

Novamente começo meu texto com uma citação, desta vez da obra prima O guardador de rebanhos, de Alberto Caieiro.

Toda a paz da Natureza sem gente
Vem sentar-se a meu lado.
Mas eu fico triste como um pôr-do-sol

Outro dia tive vontade de escrever sobre o entardecer. As palavras começaram a surgir de forma tão natural que pude até reconhecer as construções das frases e pensei que já tinha escrito sobre isso. Acabei desistindo da ideia e cheguei até a ficar preocupada com minha inspiração e criatividade, com medo de ficar repetitiva!

Pois bem, se já escrevi, vou escrever de novo! Quando comecei a ler O guardador de rebanhos, procurando outro trecho para uma citação do Aralume, e vi o verso mas eu fico triste como um pôr-do-sol, não teve como deixar o tema de lado, pois ele descreve exatamente o que estou passando.

Eu gosto do fim do dia. Aqueles preciosos momentos da “luz boa”, essa luz que não espera, que muda a cada minuto, como que dizendo “faça agora ou deixe pra amanhã. Vai deixar pra amanhã?!”. E então o sol se vai. Nesse momento parece que tem um lapso de silêncio, a hora da Ave Maria para os católicos. Sem dúvida um instante precioso do dia, propício à introspecção, ao silêncio, a uma breve meditação. Experimente ouvir a música Seis horas da tarde, do disco Ângelus, do Milton Nascimento. Experimente dedicar quatro minutos a simplesmente ouvir essa música, como uma forma de encerrar o dia e dar as boas vindas à noite.

Feito isso, é hora de fechar as janelas, tomar um banho cheiroso e colocar roupas quentinhas, preparar uma sopa. Nos tempos de Pedra Bela, o ritual começava acendendo o fogão a lenha, que iria aquecer a água do banho e da sopa. Ainda sinto o cheiro da fumaça que tomava conta do pequeno vale todo fim de tarde.

Há uma melancolia no entardecer. Queira ou não, o dia se foi. Tenha você cumprido ou postergado suas tarefas, o dia se foi. Mas ele deixa a promessa de um amanhecer e, ao mesmo tempo que isso nos traz esperança, traz também dúvida: conseguirei fazer amanhã o que não fiz hoje? Quais serão os planos inacabados que o próximo entardecer sentenciará?

O entardecer nos lembra que a vida é cíclica; nos lembra também que as mudanças de ciclos são graduais – há uma tolerância na natureza; e que, para amenizar o apego ao ciclo anterior e as inseguranças para com o próximo, as transições são lindas! As transições dia-noite-dia são enfeitadas, são poéticas e tem um colorido todo especial.

Relendo as anotações que fiz no Mulheres que correm com os lobos paro em uma frase duplamente grifada: a natureza não pede licença. Logo abaixo outro grifo: o que deve morrer morre. O parágrafo continua assim: “para a maioria das mulheres, deixar morrer não é contra sua natureza, é contra sua criação. Todas nós sabemos no fundo de los ovarios quando chegou a hora da vida, quando chegou a hora da morte. Podemos tentar nos enganar por vários motivos, mas sabemos”.

Às vezes eu interpreto essa mudança tão drástica nos meus planos (milimetricamente calculados, diga-se de passagem) como um aviso da natureza, dizendo: alto lá, não é você que está no comando! Por mais que, assim como Os Doces Bárbaros, nossos planos sejam muito bons, sinto o peso de uma mão enorme empurrando minha cabeça até o chão e mostrando quem é que manda.

Nem se eu quisesse seria possível tirar essa mão da minha cabeça; eu não teria força suficiente para fazer frente a essa imposição muito maior do que eu e que na verdade nem me dá sua dimensão.

Desconfio que eu tenha me enganado em algum passo...

Mas não vou tentar descobrir qual foi, porque agora, com a cara no chão, não consigo nem olhar pro lado, quanto mais para trás. A única coisa que posso fazer – e que sinto que devo fazer – é praticar a décima norma ética do Yôga, a autoentrega. Chega de querer analisar os fatos, chega de querer enxergar o que os olhos não podem ver. E nessa hora, por incrível que pareça, é na medicina convencional que me apoio.

Quem me conhece sabe que não concordo com o esquartejamento que a medicina faz, olhando cada mínima parte isolada do todo, ignorando corpos sutis e outros tipos de interações energéticas, kármicas, cósmicas! Mas agora, se é que entendo a mensagem, exercitando a autoentrega, essa visão simplista e reduzida é tudo o que eu preciso: fui vítima de uma fatalidade, houve uma falha na multiplicação celular, o embrião não passou no controle de qualidade. O que deve morrer morre. A natureza não pede licença.

quinta-feira, 19 de abril de 2012

O Clã das Cicatrizes

As lágrimas são um rio que nos leva a algum lugar. O choro forma um rio em volta do barco que carrega a vida da alma. As lágrimas erguem seu barco pelas pedras, soltam-no do chão seco, carregam-no para um lugar novo, um lugar melhor.

Esse parágrafo é do capítulo Marcas de combate: a participação no clã das cicatrizes, do livro Mulheres que correm com os lobos, de Clarissa Pinkola Estés. E cá estou eu recebendo a marca de mais um combate; subindo mais um grau na escala hierárquica do Clã das Cicatrizes; registrando sensações e enviando notícias direto do front.

Notícia boa a gente estende, dá vontade de contar de um por um, ver cada carinha de alegria, organizar encontros, pagar interurbanos; já uma notícia triste eu quero dar uma vez só, eu quero ouví-la sair da minha boca o mínimo possível... então lá vai!

Ontem tive um sangramento e fui prontamente atendida pelo amigo, padrinho e afilhado de casamento, médico competente e cuidadoso, Dr. Alan Hatanaka. Quando ele começou o ultrassom eu reconheci a imagem e identifiquei na hora que o ponto brilhante que piscara tão lindamente no primeiro exame estava imóvel... ele, quieto, vasculhava os arredores, até que disse que não teria boas notícias... o coração do nosso tão desejado bebê não mais batia... o PC, ao meu lado, caiu num choro convulso; eu tentava me conformar com a sabedoria da natureza.

Tudo o que eu queria era ir embora pra casa e aquela Fernão Dias parecia interminável. Chorei, claro, chorei muito. A cada momento eu pensava em um detalhe, em uma pessoa, em um plano e chorava mais.
Chegando em casa choramos juntos, abraçados, debaixo do céu urbano mais estrelado que já vi. Nada como sofrer debaixo das estrelas.

Tomei um banho improvisado no meio do caos da mudança, que não é nada comprarado ao caos interno. Ganhei uma sopinha deliciosa, daquelas que aquecem a alma e cofortam o coração. Sentindo um pouco de cólica, dormi sem nem escovar os dentes.

Acordei de madrugada e ao ver a água da privada tingida de um vermelho intenso a vista escureceu; respirei fundo para ir até o quarto e desmaiei na borda da cama, para desespero do Paulo Cesar, tadinho. Foi um desmaio relâmpago que deixou em seu lugar uma cólica insuportável. Na hora eu só pensava que se eu não suportava aquela cólica, como queria suportar um trabalho de parto?! Coisas diferentes, eu sei... ligamos pro Alan e ele receitou um buscopan. Hora de acionar a família pra encontrar farmácia aberta na madrugada bragantina.

Não sei por que, mas vomitei e a cólica passou, como mágica. Logo minha mãe e o Ed chegaram com o remédio, que tomei sem titubear, tamanho era o medo de viver aquela dor de novo, ainda mais levando em consideração que estávamos indo para São Paulo e a interminável Fernão Dias nos aguardava.
Sem dor, arrumei a mala. Antes de sair fui ao banheiro e me deparei com um volume considerável no absorvente, que quase caiu na privada. Seria ele?! Sem examinar, embrulhei aquele corpo estranho em papel e fui cumprir a promessa que fizera a caminho de casa: enterrei nosso bebê no pé de uma mangueira (a árvore, é claro!). Foi um enterro simbólico, mesmo porque depois disso saiu (e continua saindo) tanta coisa de mim que não dá pra saber qual foi o bonde que ele pegou. Mas ali no pé daquela mangueira recém amiga, no escuro daquele céu estrelado, cavei um pequeno buraco e pedi perdão àquele ser por não ter podido acolhe-lo da forma com ele precisava; agradeci àquela incipiente vida pelas lições tão intensas que ela me trouxe em tão curto espaço de tempo; e desejei que eu saiba entender e assimilar cada uma delas.

Sem dor e com muito sangue lá fomos nós para a estrada interminável. E eu sabia que o pior ainda estava por vir. Aliás, a cada passo que dou ouço claramente “o pior ainda está por vir”. Não vejo a hora de que essa voz diga “fique tranquila, o pior já passou”.

Não sou habitué de hospitais e talvez até mesmo por isso eu não me acostume com esse local. Espera, exame de toque doloridíssimo, muita espera, ultrassom desconfortabilíssimo, mais um exame de toque igualmente prazeroso e o pior (por enquanto): a notícia de que eu teria mesmo que ficar internada para fazer a curetagem, procedimento que retira o resto de material intrauterino (o embrião já não estava mais lá, mas ainda tinha uma “limpeza” a ser feita).

Quando deitei na maca, literalmente contorcendo de dor, e veio a sequência de aperta veia e injeta agulha, desabei. Me vi ali naquele ambiente branco, recebendo uma droga na veia (bem vinda, diga-se de passagem) e com o prognóstico do pior que ainda estava por vir... anestesia e noite no hospital. Não fiz a menor questão de dar uma de forte e “até fiquei com dó de mim”.

Não entra na minha cabeça como pessoas podem passar por isso tudo voluntariamente pra aumentar peito ou tirar barriga! Whatever...

Tive ali alguns momentos de profunda tristeza e desilusão com o mundo. E as auto-perguntas, claro, as auto-perguntas. Mas eu tenho um marido muito ponta firme, muito alto astral, que não deixa eu me afundar nessas coisas e mata na unha todas as pulgas que insistem em se reproduzir atrás da minha orelha.

Consegui até dormir um pouco. Mas a sequência de “piores” não terminou e fui acordada por uma enfermeira que insistia em tirar minha roupa e colocar uma camisola. É claro que eu não gostei, mas é claro que não teve acordo.

A dor foi passando e fui me acostumando com aquela situação... a gente se acostuma com tudo nessa vida... lembrei do Clã das Cicatrizes e comecei a me sentir melhor com esse “talho na cara”.

Agora aguardo o Alan e a tal da curetagem. Enquanto isso me distraio escrevendo... as palavras também insistem em sair de mim!

E aproveito para fazer um pedido aos amigos, àqueles que quiserem expressar seus pesares nessa hora tão difícil: por favor façam-no por escrito. Por e-mail, por facebook, no blog, por carta, cartão postal ou como sua criatividade mandar. Assim vou lendo aos poucos e não preciso responder em tempo real. Permita-me esse pedido... as conversas por telefone são desconfortáveis e ainda é cedo para visitas.

Mas as visitas, inclusive para conhecer a casa nova, serão muito bem vindas em breve! Na medida do possível estou bem e não vejo a hora de poder dizer sem pestanejar “o pior já passou”.

domingo, 1 de abril de 2012

Como foi

É engraçado como a reação de muitas pessoas quando eu conto que estou grávida é algo do tipo "Nossa! Me conta, como foi?".

Eu brinco perguntando se a pessoa nunca ouviu nada sobre cegonhas e repolhos, mas depois pergunto se ela quer mesmo que eu entre em "detalhes técnicos". Todos riem e mudamos de assunto.

Bem, sobre a decisão de me tornar mãe eu realmente entendo que possa causar espanto em alguns, pois eu já declarei categoricamente e por um bom tempo que não queria ter filhos. Aí em Fevereiro de 2010 tudo mudou, mas essa história você, que é leitor/a do Filho do Aralume, já conhece ;)

Eu até falo que estou grávida há dois anos. Na verdade, eu tive um período de concepção que começou em fevereiro de 2010 e durou dois anos, culminando na concepção física em fevereiro de 2012. Entenda: eu não fiquei tentando engravidar por dois anos, eu me preparei para engravidar por dois anos... coisa de gente doida, admito!

Enquanto a ideia de ser mãe foi amadurecendo, fui também organizando a parte prática e planejando junto com o outro principal interessando, também conhecido como marido, quando iríamos colocar de fato o plano em prática. Nossa decisão foi de começar a tentar no começo de 2012. Não por conjunções astrológicas, nem pelo calendário Maia, mas porque eu gostaria muito de parir no verão!

Paralelamente a isso inventamos a viagem para os Andes, que seria uma espécie de "despedida das grandes aventuras", juntando ainda uma vontade minha de ter uma experiência de viajar sozinha. O resultado foi incrível e você deve ter lido aqui.

Pois bem, durante a viagem eu "entrei numas" de que queria ter um "bebê inca"! Achei o máximo a ideia de conceber nosso rebento na Isla del Sol, no meio do Lago Titicaca, a quase 4 mil metros de altitude! Mas as coisas não são assim tão simples... voltemos às aulas de aparelho reprodutor do colegial, com ajuda do Dr. Google, é claro!:

- o ciclo feminino dura, em média 28 dias, contados a partir do primeiro dia da menstruação. No meio do ciclo ocorre a ovulação, que é quando a mulher encontra-se fértil. O óvulo fica "disponível" por, no máximo, 24 horas! Ou seja, um dia a cada 28 dias é quando a mulher tem chance de ficar grávida;
- por outro lado, os espermatozoides sobrevivem dentro do corpo da mulher por até cinco dias, mas em média por três dias, ou seja, isso multiplica por três, quatro ou cinco vezes as chances da mulher ficar grávida a cada ovulação;
- mas essa potencialização das chances de engravidar graças a espermatozoides espertos e persistentes só vale antes da ovulação... depois que o óvulo foi embora, só nos resta esperar mais um ciclo...

E foi por isso que não tivemos um bebê inca... analisando meu ciclo eu devo ter ovulado no meio do Salar de Uyuni. Se você leu o relato de viagem no Aralume, sabe que naquelas condições não tinha muito "clima" pra encomendar um bebê... aí na Isla del Sol e no confortável hotel em La Paz meu óvulo já tinha ido embora...

Tudo é perfeito e agora eu fico pensando onde é que eu estava com a cabeça de querer ficar grávida às vésperas de fazer a Trilha Inca e de ficar duas semanas sozinha em Cusco!

E foi justamente por ter passado esse tempo sozinha e ainda ter chegado em casa sem marido, que meu primeiro óvulo de 2012 também se foi... por essa época eu inventei uma história, que foi a "coisa extraordinária". Falei sobre isso aqui. A brincadeira era que a cada mês que eu não ficasse grávida eu faria alguma coisa "mutcho loka", que não poderia fazer (ou não faria muito sentido) se estivesse grávida. E eu teria que resolver qual seria essa coisa assim que ficasse menstruada (não valia ficar planejando e fazendo listas de coisas extraordinárias... tinha que ser uma por vez!) e realizá-la no prazo de duas semanas, ou seja, antes da ovulação. Sim, eu sei, coisa de gente doida!

Mas entre as maluquices de gente doida, passam coisas sérias e pertinentes na minha cabecinha... e a principal delas foi o insight de pensar a sexualidade. Falei sobre isso aqui e aqui. E como esse é definitivamente um tema que não funciona só com teorizações, partimos pra prática!

E praticamos, e praticamos e praticamos muito! Na minha análise pessoal, considero que eu e o Paulo Cesar nunca tínhamos chegado em níveis tão altos e muito bem combinados de amor e tesão. No começo do namoro é muito tesão e um amor incipiente... depois o amor vai aumentando, mas o tesão já não tem mais o vigor da novidade. Claro que não foi uma relação assim tão linear e inversamente proporcional o tempo todo... mas é uma tendência.

Uma coisa que eu tinha medo de acontecer quando a gente resolvesse ter filho era que o sexo ficasse estritamente relacionado a isso, como se fosse uma lição de casa. Isso me apavorava! Mas não chegamos nem perto de correr esse risco...

E é por isso que a primeira sensação que eu tive quando pensei que poderia estar grávida foi "o recreio acabou"! Não sei se você pegou a sutileza da coisa... não é que agora não faremos mais sexo, claro que fazemos e faremos, mas muda (lembre-se, Tudo muda!). E antes meu foco era experimentações em sexualidade (recreio)... agora meu foco é fabricar um ser humano (sala de aula). Sacou?!

Nos dias que antecederam a confirmação da gravidez rolou uma certa tensão... eu não fazia questão de estar grávida... se não estivesse iria inventar uma "coisa extraordinária" e ideias já pipocavam na minha cabeça, transgredindo as regras do jogo! Mas isso significaria que eu ou o Paulo Cesar poderíamos ter algum "pobrema". Não era possível que com aquela quantidade de espermatozoides, tão bem distribuída ao longo dos dias, nenhum chegasse até o óvulo... ou será que justo naquele mês meus óvulos tinham resolvido fazer greve?

Pura paranoia, é claro, mas quem não é paranoico?

No fundo eu já sabia que estava grávida... já conseguia sentir algumas mudanças sutis... não senti nenhuma pequena explosão quando espermatozoide e óvulo se encontraram, mas ao longo dos dias ia percebendo que algo tinha mudado.

Só que paranoico que se preze não deixa por menos e eu pensava que poderia estar doente, ou com gravidez psicológica, ou as duas coisas juntas!

Eu tinha visto em algum site que seria mais confiável fazer o teste de farmácia no quinto dia de atraso da menstruação... mas no quarto dia eu não aguentava mais de angústia e comprei o teste! Era noite e eu também tinha visto no tal site pra fazer o teste com a primeira urina do dia... li a embalagem e não falava nada disso. Quer saber? Vou fazer!

E fiz... e foi tão bonitinho ver aquelas duas listrinhas aparecendo instantaneamente... é claro que eu estava grávida! Eu já tinha matutado tanto sobre a possibilidade de estar grávida que aquele teste foi só um alívio. Não foi emoção, não foi medo, não foi "e agora?". Foi certeza.

Nesse dia eu continuei a postagem que tinha feito quando desconfiei que estava grávida. Na metáfora do menino que fica inconformado com a sirene encerrando o recreio, ele caminha para a sala de aula querendo continuar o futebol, mas quando vê qual é a próxima aula, esquece da bola e fica feliz. A próxima aula é de arte!

E eu só sei que foi assim!

quarta-feira, 28 de março de 2012

Tudo muda

Muda e muda mesmo. E acho que seria tão melhor para todos se todos soubessem disso... e seria tão melhor para todas se todas se permitissem isso...

Estar fabricando um ser humano não é qualquer coisa. Muito pelo contrário, é uma grande coisa! A Carol disse que quando estava grávida se sentia a pessoa mais importante do mundo. Andava na rua e pensava "pessoal, olha só o que está acontecendo aqui!". Ótimo resumo da ópera!

Quando eu era uma reles mortal olhava com certo desdém as "frescuras de grávida". É que eu nunca fui do estilo "mulherzinha", principalmente no quesito físico... sou bem mais pra moleca do que pra mulherzinha (sim, tenho minhas manhas, mas se tem coisa que gosto de deixar entre quatro paredes são minhas manhas!).

Só que agora tudo mudou. Estou mole. E sabe o que é "pior"? Estou mole e não faço a menor questão de não estar mole! Não quero fazer força, sento a qualquer oportunidade (se der pra deitar, melhor ainda!) e fico sem fazer nada quase que de consciência tranquila.

Bem, isso é o de menos. Existem coisas profundas que mudam também. Os quereres mudam, as crenças mudam, as prioridades mudam. A primeira reação é tentar negar ou não enxergar essas mudanças; é tentar levar a vida como se nada tivesse mudado. Mas peraí: como assim "se nada tivesse mudado?!". TUDO mudou!

Antes, quando eu era uma reles mortal, admirava as grávidas que trabalhavam durante toda a gestação. Pensava comigo "claro, gravidez não é doença, tem que trabalhar mesmo!". Agora o que sinto é indignação contra o sistema e uma peninha dessas mulheres "poxa, ela está grávida! Quer trabalho mais pesado e nobre do que esse?".

Mas não vou levantar nenhuma bandeira... preguiiiiiiiiiiiiiiiiça...

Só sei que estou aqui na minha toquinha, desligando um pouco o "célebro", deixando instintos e vontades aparecerem, esquecendo pré-conceitos e nem me preocupando em elaborar novos.

E vou também me despedindo aos poucos dessa Carolina que você conhece... despeça-se também... ela está indo embora... vou sentir saudade... [bocejo] mas depois eu penso nisso [outro bocejo]...

zzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz...

Ah, constato alegre que ainda preservo a "mania" de pensar em espanhol. Quando reli o título da postagem foi automático: Todo cambia ;) Perfeito! Cada verso... tem horas que eu penso que não preciso escrever nada, é só escolher uma música!


Cambia lo superficial
Cambia también lo profundo
Cambia el modo de pensar
Cambia todo en este mundo
Cambia el clima con los años
Cambia el pastor su rebaño
Y así como todo cambia
Que yo cambie no es extraño
Cambia el mas fino brillante
De mano en mano su brillo
Cambia el nido el pajarillo
Cambia el sentir un amante
Cambia el rumbo el caminante
Aúnque esto le cause daño
Y así como todo cambia
Que yo cambie no es extraño
Cambia todo cambia
Cambia el sol en su carrera
Cuando la noche subsiste
Cambia la planta y se viste
De verde en la primavera
Cambia el pelaje la fiera
Cambia el cabello el anciano
Y así como todo cambia
Que yo cambie no es extraño

Pero no cambia mi amor
Por mas lejo que me encuentre
Ni el recuerdo ni el dolor
De mi pueblo y de mi gente


Lo que cambió ayer
Tendrá que cambiar mañana
Así como cambio yo
En esta tierra lejana


Cambia todo cambia



sexta-feira, 23 de março de 2012

XVIII - Ditos populares

Vox populi, vox dei

Se a voz do povo é a voz de deus, o que dizer da voz do Chico Buarque? Entendamos aqui que não se trata da voz física enquanto reverberação das cordas vocais - se fosse esse o caso eu citaria a voz do Milton Nascimento.

O arrodeio é pra falar de uma música que eu adoro e que me foi trazida hoje pela inspiração de um amigo ao recomendar trocar o certo pelo duvidoso. Adoro os ditos populares, mas neles mesmo há um preceito moderador: se conselho fosse bom, ninguém dava, vendia!

Só que os generosos dão! E o Chico é muito generoso (como também o são Milton, Gil, Caetano e todos os compositores e compositoras do nosso vasto e rico cancioneiro).

Segue a música:


Ouça um bom conselho
Que eu lhe dou de graça
Inútil dormir que a dor não passa
Espere sentado
Ou você se cansa
Está provado, quem espera nunca alcança
Venha, meu amigo
Deixe esse regaço
Brinque com meu fogo
Venha se queimar
Faça como eu digo
Faça como eu faço
Aja duas vezes antes de pensar
Corro atrás do tempo
Vim de não sei onde
Devagar é que não se vai longe
Eu semeio o vento
Na minha cidade
Vou pra rua e bebo a tempestade
Ah, sim... o que isso tem a ver com maternidade? Tire suas próprias conclusões...